Reviews e Previews

Review – Beast of Reincarnation

Tenta transformar a parceria entre Emma e Koo em seu maior poder

O RPG de ação da Game Freak encontra boas ideias no parry, na exploração vertical e no vínculo entre uma purificadora sem emoções e seu companheiro canino, mas tropeça na repetição, no ritmo e em uma estrutura que nem sempre recompensa a curiosidade. O projeto chama atenção porque a Game Freak (conhecida pelo jogo de Pokémon) se aventura fora do território pelo qual ficou mais conhecida. A mistura de Japão pós-apocalíptico, criaturas corrompidas, corpos mecânicos e iconografia budista tem personalidade suficiente para não parecer apenas uma troca de skin em um action RPG. O problema é que uma identidade visual forte não resolve, sozinha, as arestas de uma campanha que divide suas melhores ideias com conteúdo menos inspirado.

História…

A história se passa no Japão do ano 4026, cerca de dois milênios no futuro. A Blight ou Pestilência (Um Vírus) corrompe plantas, animais e pessoas. A expansão da praga deixou florestas venenosas, assentamentos humanos dispersos, ruínas e áreas onde a natureza retomou o que restou da civilização. Emma é uma Purificadora ou Seladora: uma humana afetada pela Blight, excluída pela sociedade, mas capaz de absorver a corrupção e convertê-la em poder. Ela não tem memórias claras de sua origem e começa a aventura com uma relação distante com as próprias emoções. Sua missão é enfrentar os Nushi, criaturas de elite que dominam diferentes regiões, absorver suas habilidades e chegar à Fera da Reencarnação, a entidade associada a um ciclo de calamidade que se repete a cada cem anos.

Koo é um animal atingido pela praga que passa a viajar com Emma. Ao longo da campanha, a relação dos dois deixa de ser apenas funcional. Kagura, uma jovem resgatada por Emma, Brad, piloto e comerciante ocasional, e Violet, uma figura que somente Emma consegue ver e ouvir, ampliam a trama e ajudam a revelar o passado dos personagens. O melhor da narrativa está no movimento de Emma: a convivência com Koo e Kagura dá forma a uma personagem inicialmente anestesiada. A história trabalha luto, vínculos, tecnologia e a tentativa de prolongar a vida. Há ideias para sustentar uma ficção maior, mas nem todas recebem o mesmo cuidado.

Mecânicas e Gameplay…

O combate combina golpes rápidos de espada, armas de longo alcance, esquiva, bloqueio e, sobretudo, parry. Emma desfere ataques básicos, se esquiva, bloqueia e pode aparar no momento certo. O parry reduz a postura dos inimigos, gera recursos para Koo e pode abrir a oportunidade para um finalizador. A barra de atordoamento permite interromper inimigos após uma sequência de golpes. Soldados podem ser eliminados por aproximação furtiva ou tiro na cabeça, e há habilidades de Emma que combinam com ataques de espada e disparos. A personagem também pode usar o cabelo vegetal para alcançar pontos altos, criar plataformas temporárias, formar pontes, agarrar áreas específicas e transformar altura em vantagem para ataques verticais.

Koo é acionado por um menu próprio. A seleção de suas Bloom Arts desacelera a ação, criando um intervalo semelhante ao de comandos de um RPG por turnos. As técnicas podem causar dano, interromper inimigos, aplicar efeitos negativos, prender alvos com raízes, recuperar vida ou reforçar a barra de stagger. Os Pontos de Floração/Fluorescência usados nessas ações são obtidos com aparadas bem-sucedidas. Quando Emma e Koo combinam as artes do lobo com o Entanglement Overdrive, ativado por L3 e R3, o tempo fica mais lento e a dupla recebe uma janela de poder ampliado. A estrutura exige alternar defesa, posicionamento, golpes, armas e habilidades, em vez de atacar sem planejamento.

É nesse encaixe que Beast of Reincarnation deixa de ser apenas um catálogo de referências. O parry tem retorno claro, Koo não parece um acessório e a mobilidade vertical dá utilidade real ao cenário. Minha ressalva é que o jogo demora a apresentar todas as ferramentas que dão personalidade ao sistema; as primeiras horas podem parecer mais convencionais do que a campanha promete.

Armas e upgrades…

A espada é a arma principal de Emma além de duas armas secundárias, uma besta que dispara dardos e um arco e flecha. Espadas diferentes mantêm o conjunto básico de golpes em vez de criar movesets totalmente novos, porém acrescentam propriedades como dano elétrico, aquático ou venenoso, recuperação de vida e aumento de chance crítica. Emma e Koo têm árvores de habilidades separadas. A progressão permite investir em atributos como Força, Vitalidade e Floração, desbloquear técnicas e modificar as Bloom Arts. Koo usa amuletos; Emma equipa espadas, itens defensivos e pedras espirituais, que acrescentam bônus. As árvores podem ser reorganizadas depois de algum tempo de jogo, o que facilita trocar uma configuração furtiva por outra agressiva ou mais concentrada nas capacidades de Koo.

Âmbar aparece como moeda de melhoria em uma das análises, enquanto acampamentos e a base móvel de Emma concentram parte do aprimoramento. A exploração fornece materiais, armas, receitas e itens para melhorar o Bauera, também chamado de Caminhante Purificador ou Cleanse Walker. A alimentação complementa a progressão: Emma e Koo recuperam vida naturalmente quando a fome não está vazia, e refeições preparadas por Kagura oferecem bônus de HP, ataque e defesa. Na base, é possível cultivar plantas e criar uma galinha para ampliar os ingredientes disponíveis; receitas e benefícios crescem conforme o relacionamento com Kagura.

O arsenal não parece interessado em reinventar o golpe básico a cada nova espada. Ele prefere oferecer escolhas de dano, passivas e construção de personagem. Isso combina com o lado RPG do projeto e permite adaptar a build, mas pode frustrar quem espera que cada arma mude radicalmente a sensação de jogar. A alimentação é mais interessante do que um simples estoque de cura porque conecta combate, exploração, base e personagens.

Parceria com o lobo branco Koo…

Koo recebe ordens em combate, possui habilidades próprias, barra de vida e espaços de habilidade que aumentam conforme o vínculo com Emma evolui por carinho, petiscos e higiene. Koo pode indicar objetivos por feromônios, latir ao encontrar algo interessante e trazer itens. No Cleanse Walker (uma espécie de Robo Gogante Veículo), ele toma banho e pode se comunicar com ele. Em combate, suas Bloom Arts são selecionadas em uma pausa ativa, e a combinação com as aparadas de Emma transforma a parceria em parte do ritmo defensivo. Há ainda técnicas florais capazes de causar dano e recuperar energia. Koo é o coração de Beast of Reincarnation. O jogo não se limita a colocar um mascote ao lado da protagonista: ele faz o animal funcionar como ferramenta de navegação, fonte de recursos, parceiro de ataque e eixo de progressão. O vínculo também dá à campanha seus momentos mais delicados. Mesmo quem não se envolver completamente com a trama tende a perceber que Koo é a solução mais convincente para unir mecânica e emoção.

Inimigos e chefes…

Os inimigos mais comuns são as criaturas corrompidas pela Blight, são as feras, os Profanos/Malefacts e golens. Os golens são como humanos que preservaram a alma em máquinas para escapar da Pestilência; também aparecem soldados, inimigos voadores, robôs e um golem armado com lança acompanhado por um pequeno exército. Os Nushi são os grandes confrontos de cada região. Há o exemplo de uma entidade colossal semelhante a um cervo, cujos ataques de galhada exigem aparadas sucessivas. Outros chefes são feras gigantes, robôs ou humanoides, e a exploração pode esconder chefes adicionais. Derrotar um Nushi concede uma habilidade nova e permite a Emma absorver poderes que passam a alimentar técnicas especiais.

As lutas de chefe costumam ter duas fases, mas a mudança nem sempre é substancial. Os Boss são sempre Gigantes, a encenação cinematográfica e o retorno das aparadas são bem legais, ao mesmo tempo, são simples, confrontos que voltam com poucas alterações e situações em que a arena ameaça mais do que o próprio chefe. O jogo é mais convincente quando coloca Emma e Koo diante de um Nushi que obriga o jogador a ler ataques e administrar recursos. Fora desses picos, a baixa variedade pesa. A repetição não destrói o sistema, mas reduz a sensação de descoberta e faz alguns encontros parecerem uma extensão artificial da duração.

Cenários e ambientação…

A jornada atravessa florestas belas e perigosas, cidades em ruínas, zonas urbanas tomadas por vegetação, bases subterrâneas inundadas, habitats misteriosos, áreas desérticas e regiões associadas ao Monte Fuji. O mundo também mistura templos, símbolos budistas, mitologia, máquinas e flores que manifestam poder. Há áreas abertas e regiões lineares, corredores e mapas com rotas alternativas. O cabelo de Emma cria plataformas, pontes e ganchos, essa mobilidade permite explorar por cima, atacar furtivamente e alcançar recompensas fora do caminho principal. Acampamentos funcionam como checkpoints, pontos de recuperação e locais de melhoria. A direção de arte faz o Japão devastado parecer reconhecível e estranho ao mesmo tempo. A imagem de uma cidade engolida pelo verde, ao lado de ruínas tecnológicas e símbolos religiosos, é mais marcante do que qualquer promessa técnica. As áreas nem sempre têm a mesma força, mas a ambientação melancólica sustenta a ideia de um país tentando sobreviver à própria transformação.

Repetido e vazio propositalmente…

O game apresenta um cenário próximo da extinção, com ruínas e natureza retomando espaços, e uma exploração que pode oferecer materiais, armas, receitas, santuários e melhorias de base. Não há senso de direção muito intuitiva tbm, o game conta com barreiras invisíveis, áreas bloqueadas sem sinalização clara e a recompensas escassas para quem sai da rota. A repetição é um dos pontos baixos do game, inimigos comuns e chefes reaparecem com frequência; alguns Nushis retornam com poucas alterações de movimentos. Há um boss que precisamos enfrenta-lo três ou quatro vezes seguidas, já na segunda metade de Beast of Reincarnation, além de ter uma campanha linear, sem escolhas, ramificações ou missões secundárias.

Apesar do mundo de Beast of Reincarnatio ser vazio, há coisas para encontrar, mas nem sempre há motivos fortes para investigar cada desvio. O espaço parece mais solitário, e às vezes subpovoado de atividades significativas, porque a campanha linear e a repetição ocupam o lugar de missões secundárias e recompensas mais inventivas. Para uma aventura de aproximadamente 20 horas a estrutura poderia ser mais enxuta e variada.

Gráficos e trilha sonora…

O Game é bem bonito no geral, e merece elogios em relação à direção de arte, ao design de personagens e ao contraste entre vegetação e maquinaria. Mas como nem tudo é perfeito, podemos encontrar algumas animações faciais rígidas, texturas ocasionalmente turvas ou pouco detalhadas, brilho artificial em interiores e falta de um salto técnico geracional. A trilha combina com o momento do game, agradável e adequada aos ambientes, mas relativamente repetitiva. O jogo parece ter uma imagem própria, mas não uma execução técnica impecável. A música é mais consistente: mesmo com faixas recorrentes, o uso de vozes e a trilha sonora ajudam a fazer a viagem parecer maior do que seus mapas e sua estrutura deixam transparecer. A dublagem japonesa é bem boa, com destaque para Yui Ishikawa como Emma e Akio Otsuka como Brad. Ah, temos menus e legendas em português brasileiro também.

Resumo…

Beast of Reincarnation é um RPG de ação solo sobre Emma, uma Purificadora capaz de absorver a Blight, e Koo, seu companheiro canino. A campanha atravessa um Japão de 4026 devastado pela Pestilência, combina parry, armas, habilidades florais e exploração vertical, e usa os Nushi como chefes-regionais e fontes de novos poderes. É uma estreia surpreendentemente segura da Game Freak no action RPG em seus melhores momentos, especialmente quando a parceria entre Emma e Koo está no centro da ação. Não é, porém, uma obra sem arestas: a variedade diminui, a exploração nem sempre paga a curiosidade e o desempenho pode variar bastante conforme a plataforma e a versão.

Vale a pena comprar?

Sim, com ressalvas. Quem gosta de parry, exploração vertical, builds e histórias de ficção científica melancólica encontrará uma campanha competente e uma dupla protagonista que sustenta o investimento emocional. Koo é um diferencial verdadeiro, não um enfeite de marketing. A recomendação fica mais forte para quem tem acesso ao Xbox Game Pass. Para uma compra com o valor cheio, a decisão exige mais tolerância à repetição, à ausência de missões secundárias e a possíveis problemas técnicos; esse é o ponto em que a ambição do projeto não acompanha sempre a execução.

Review - Beast of Reincarnation

Combate divertido e estratégico - 8.5
Excelente relação entre Emma e Koo - 8.5
Progressão flexível e recompensadora - 8
Atmosfera e direção de arte impressionantes - 8
Desafio abaixo do esperado para um soulslike - 7.5
Pouca variedade de inimigos e chefes - 7
Exploração nem sempre recompensadora - 7
Problemas técnicos e visuais - 6

7.6

Bom!

Beast of Reincarnation acerta ao fazer de Emma e Koo um sistema jogável e emocional ao mesmo tempo. Ele erra por reciclar confrontos, oferecer um mundo menos recompensador do que sua mobilidade sugere e apresentar desempenho abaixo do esperado com carregamento de texturas e uma câmera que nem sempre ajuda. Ainda é uma boa aposta da Game Freak, mas distante de ser uma referência definitiva do gênero.

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Eduardo Lino

Olá, Eu sou o Edu! Sou o criador do portal de notícias Gamer Spoiler. Apaixonado por games desde pequeno e jornalista nas horas vagas!
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