Review – High Times

A Terapia que Anda Sobre Duas Rodas e Cobertura de Morango
Quando você está cansado de salvar o mundo, às vezes, tudo que você quer é sentar, pegar um café (ou uma rosquinha) e ouvir os problemas dos outros. E foi exatamente isso que a desenvolvedora Yangyang Mobile me proporcionou com High Times, um visual novel e simulador de encontros que mistura a vida noturna de um confeiteiro com a complexidade das relações humanas. Lançado no dia 23 de julho de 2026 para PC, PS5, Xbox Series X/S e Nintendo Switch, o jogo chegou com a promessa de resolver traumas emocionais através da “Donut Therapy”. E cá entre nós, se a vida real fosse assim, eu estava muito bem, obrigado.
Uma História que Desperta o Paladar (e as Emoções)…
A premissa de High Times é tão simples quanto genial. Você assume o papel de um confeiteiro(a) na misteriosa e acolhedora loja noturna “The Hotbox”, localizada na cidade fictícia de São Mazo. Aqui, as rosquinhas não são apenas feitas de massa e açúcar; elas são infundidas com propriedades que alteram o humor. É a famosa “Donut Therapy”, onde o que você serve pode literalmente mudar o dia de alguém. O enredo ganha tração quando seu chefe sai de férias e você fica encarregado de gerenciar o estabelecimento sozinho. Para complicar (ou apimentar) a situação, quatro ex-interesses amorosos começam a aparecer na loja, trazendo bagagens emocionais e memórias do passado. E, como se não bastasse, uma mensagem enigmática de alguém do seu passado conturbado surge, adicionando camadas de mistério à sua própria jornada. A história flui de forma orgânica, misturando humor ácido com temas adultos como solidão, arrependimento e ansiedade. É o tipo de narrativa que te faz rir de uma piada boba e, no minuto seguinte, te faz refletir sobre a fragilidade humana.
Personagens que Têm Camada (como as Rosquinhas)…

A equipe de desenvolvimento fez um trabalho fantástico na construção do elenco. Como eu já mencionei, o seu protagonista, embora customizável em sua aparência, possui uma personalidade forte e bem definida. Ele usa muito o sarcasmo e a ironia como escudo, o que o torna carismático e fácil de se relacionar. O destaque, claro, vai para os seis personagens românticos, cada um com seu próprio arco e peculiaridades. Tive muito contato com a MJ, uma roqueira com sérios problemas de responsabilidade, e os diálogos com ela são absolutamente hilários. O que me impressionou foi como os personagens secundários também ganham vida. Eles não são apenas NPCs que chegam, pedem uma rosquinha e vão embora; eles têm vidas, traumas e motivos para estar ali. A forma como as histórias se entrelaçam faz com que a cidade de São Mazo pareça um lugar real e pulsante.
Gameplay: Cozinhando Sentimentos…

A jogabilidade de High Times se divide em dois momentos principais: o expediente na loja e o pós-expediente. Durante o turno, você atua como um verdadeiro detetive de emoções. Os clientes não chegam apenas com fome; eles chegam com necessidades emocionais que nem sempre expressam claramente. Seu trabalho é interpretar o que eles realmente precisam e preparar a rosquinha perfeita para eles. O processo de preparo é detalhado e visual. Você escolhe o formato da massa, o sabor do recheio, a cobertura (como baunilha para felicidade) e os granulados. A mecânica é intuitiva e apoiada por um livro de receitas, mas exige atenção.

Alguns pedidos são diretos, outros exigem que você inove no momento. É um ciclo de jogo viciante nas primeiras horas, transformando a produção de doces em uma ferramenta de cura. Após o expediente, a diversão continua na personalização da loja. Você pode comprar novos ingredientes, equipamentos e móveis que, teoricamente, aumentam a chance de certos clientes aparecerem. Além disso, as redes sociais dos personagens, como o “Tender” e o “Facennok”, permitem acompanhar o progresso dos relacionamentos e revisitar momentos importantes.
Gráficos e Ambientação: Uma Aquarela de Sabores…

Visualmente, High Times é um deleite. A direção artística optou por um estilo que lembra revistas em quadrinhos, com balões de fala e enquadramentos dinâmicos. Os personagens desenhados à mão têm expressões exageradas que ajudam a transmitir suas emoções durante as conversas. A loja The Hotbox, com sua iluminação quente e cores vibrantes, cria uma atmosfera incrivelmente aconchegante, perfeita para o conceito “cozy” do jogo.
A Dificuldade do Amor (e dos Pedidos)…

Se você procura um jogo com combate e reflexos rápidos, High Times não é para você. A dificuldade aqui não está na execução das mecânicas, mas na interpretação social. Entender o que um cliente deprimido realmente precisa em um momento de ansiedade pode ser um desafio. No entanto, o jogo peca ao não oferecer uma dificuldade ajustável ou legendas em português, o que pode afastar jogadores que não dominam o inglês. A verdadeira frustração vem da repetição, depois de algumas horas, a mecânica de decorar rosquinhas pode perder um pouco de seu brilho. A trilha sonora de High Times é o acompanhamento perfeito para uma noite na loja. As músicas são calmas e relaxantes, criando um ambiente propício para conversas profundas sem roubar a atenção dos diálogos. Os efeitos sonoros de cozinha, o som da massa sendo rolada, a fritura e o glacê sendo derramado, são satisfatórios e táteis. Além disso, o elenco de dublagem em inglês é fenomenal, dando vida e emoção genuína a cada interação, transformando simples conversas em momentos marcantes.
Resumindo…

High Times é uma experiência doce, mas nem tudo é tão perfeito quanto a cobertura de uma rosquinha. O jogo brilha em sua escrita emocional, na construção de personagens carismáticos e na mistura inusitada de gerenciamento de loja com simulador de encontros. A trilha sonora e os visuais de quadrinhos são pontos altos que tornam a estadia na The Hotbox muito agradável.
No entanto, o jogo não está isento de problemas. A jogabilidade pode se tornar monótona após várias horas, e a progressão do enredo depende muito da aleatoriedade da aparição dos clientes, o que pode travar o avanço de certas histórias. Além disso, a falta de opções de acessibilidade, como legendas em português, é um ponto negativo relevante.
Apesar de seus pequenos deslizes, High Times entrega uma narrativa envolvente e personagens inesquecíveis. É um jogo para quem quer relaxar, ouvir boas histórias e, claro, fazer muitas rosquinhas.
Review - High Times
Narrativa madura e personagens com profundidade emocional. - 8.5
Sistema de preparo de rosquinhas criativo e integrado à história. - 8
Visuais estilosos e trilha sonora aconchegante. - 8
Mecânica de cozimento pode se tornar repetitiva. - 7
Falta de legendas em português. - 7
Excesso de piadas sexuais em alguns diálogos. - 6.5
7.5
Bom!
High Times é uma experiência doce, mas nem tudo é tão perfeito quanto a cobertura de uma rosquinha. O jogo brilha em sua escrita emocional, na construção de personagens carismáticos e na mistura inusitada de gerenciamento de loja com simulador de encontros. A jogabilidade pode se tornar monótona após várias horas.

