Reviews e Previews

Review: Call of the Elder Gods

O Horror Cósmico que Você Estava Esperando (ou Não)

O estúdio espanhol Out of the Blue Games já provou que sabe o que faz quando o assunto é “puzzles com alma”. Depois do sucesso de Call of the Sea e do estiloso American Arcadia, eles decidiram que era hora de expandir o universo de Lovecraft de um jeito mais ambicioso. Publicado pela Kwalee, Call of the Elder Gods não é apenas uma sequência; é uma tentativa de amadurecer a fórmula. O desenvolvimento claramente focou em escala: saímos daquela ilha isolada no Pacífico para uma jornada global, visitando desde mansões na Nova Inglaterra até desertos na Austrália e picos nevados na Suíça. É o tipo de jogo que você bate o olho e reconhece a assinatura do estúdio, mas sente que o orçamento e a confiança aumentaram.

A Out of the Blue se destaca por encontrar um nicho e mergulhar fundo nele, criando uma marca registrada onde o jogador reconhece a autoria do estúdio. Com Call of the Elder Gods, eles não apenas continuam a história de Call of the Sea, mas a expandem de forma que o primeiro jogo parece um prólogo. A ambição é notável, com mais personagens, cenários variados e puzzles mais complexos, tudo isso impulsionado pela Unreal Engine 5, que proporciona um salto visual considerável. O resultado é uma experiência que mistura literatura lovecraftiana, filmes de mistério sobrenatural e jogos de puzzle em doses equilibradas, com uma atmosfera mais pesada e psicologicamente inquietante.

Uma História de Mentes Trocadas e Segredos Antigos…

A trama aqui é inspirada diretamente no conto “A Sombra Vinda do Tempo”, de H.P. Lovecraft. Se você é fã do autor, vai se sentir em casa (ou num hospício, dependendo da sua sanidade). Controlamos dois protagonistas: Harry Everhart, o marido de Norah que ainda carrega as cicatrizes emocionais do primeiro jogo, e Evangeline Drayton, uma jovem estudante de física da Universidade Miskatonic que está tendo sonhos bem esquisitos com artefatos antigos.

A dinâmica entre os dois é o coração da narrativa. Harry está cansado, melancólico, enquanto Evie traz aquela curiosidade inquieta de quem ainda não sabe onde está se metendo. E sim, para os nostálgicos, a voz de Norah (Cissy Jones) retorna como uma narradora onisciente, o que dá um toque de continuidade sensacional. A história demora um pouco para engrenar os dois primeiros capítulos são bem lentos mas quando chega no Capítulo 3, o bicho pega. Seitas obscuras, viagens temporais e a sensação de que a humanidade é só uma formiga no pé de deuses antigos tomam conta de tudo.

O jogo faz algo inteligente ao perguntar se você jogou o primeiro Call of the Sea e qual final escolheu para Norah, conectando diretamente com as decisões do jogador. Harry, interpretado por Yuri Lowenthal, funciona como um protagonista que carrega o peso dos acontecimentos anteriores, não sendo exageradamente dramático, mas apenas cansado. Evangeline, por sua vez, é um contraponto importante, trazendo uma energia curiosa e inquieta. A narrativa se aprofunda na forma como Lovecraft construiu a sensação de insignificância humana diante de forças cósmicas, algo que está ainda mais presente aqui do que no primeiro jogo. Além disso, a inclusão de Evangeline, uma mulher negra, é um ponto crucial para ressignificar a obra de Lovecraft, que era notoriamente avesso à diversidade, transformando um conflito interno do autor em uma solução razoável para expandir a obra.

Investigação e Diários…

A jogabilidade mantém a base do primeiro jogo: visão em primeira pessoa, exploração minuciosa e muitos, muitos puzzles. A grande novidade é a alternância entre Harry e Evie. No papel, parece revolucionário, mas na prática, a mecânica é mais narrativa do que funcional. Você não tem habilidades únicas para cada um; a troca serve mais para mostrar perspectivas diferentes da história.

Outra adição são as escolhas de diálogo. Elas dão um tempero extra e ajudam a moldar a personalidade dos protagonistas, mas não espere que elas mudem drasticamente o final do jogo. O foco continua sendo o seu diário, que anota automaticamente cada pista encontrada. É uma ferramenta essencial, especialmente porque o jogo não “pega na sua mão” com marcadores de objetivo piscando na tela. Você precisa observar, ler e deduzir.

A alternância entre Harry e Evangeline, embora não traga habilidades exclusivas, permite que os puzzles explorem abordagens distintas e adiciona dinamismo à experiência, com momentos em que é preciso controlar ambos quase simultaneamente. O diário, por sua vez, é um recurso prático que reúne todas as pistas, tornando a investigação acessível, mas sem subestimar a inteligência do jogador. Para quem busca um desafio maior, é possível desativar as anotações automáticas e dicas, o que muda completamente a dinâmica da exploração e exige mais da memória e percepção do jogador.

Desafios que Vão Fazer Sua Cabeça Dar Nó…

Se você gosta de puzzles que te fazem sentir um gênio (ou um completo idiota), este jogo é para você. Os desafios estão bem mais elaborados que no antecessor. Temos desde máquinas de descriptografia no estilo Enigma até enigmas complexos envolvendo astronomia, lógica e até teoria musical.

Alguns puzzles são brilhantes e integrados organicamente ao cenário. Outros, porém, podem ser um pouco frustrantes. O famoso “puzzle do piano” no capítulo 2 e o das constelações perto do fim podem testar sua paciência. Felizmente, o jogo incluiu um sistema de dicas no menu de pausa que é bem honesto: ele te dá o passo a passo se você travar de vez, sem te julgar por isso.

Os puzzles são o verdadeiro protagonista do jogo, exigindo leitura, observação, interpretação e paciência. A complexidade dos desafios cresce gradualmente, com enigmas maiores e mais interligados que demandam atenção constante aos cenários. A satisfação de resolver um puzzle é genuína, pois eles estão integrados à narrativa e não apenas preenchem espaço. No entanto, alguns enigmas podem ser inconsistentes em dificuldade, com momentos que beiram a frustração, como o desafio do piano ou das constelações, que podem não comunicar bem suas regras. O sistema de dicas, que funciona como uma apresentação de slides passo a passo, é uma adição bem-vinda para quem precisa de ajuda, sem ser invasivo para quem prefere evitá-lo.

Visual de Encher os Olhos e Som de Arrepiar…

Visualmente, Call of the Elder Gods deu um salto com a Unreal Engine 5. A direção de arte continua estilizada, fugindo do hiper-realismo para focar em cores vibrantes e cenários que parecem pinturas. A atmosfera é fantástica: o jogo consegue passar do deslumbre de uma paisagem exótica para o desconforto de uma estrutura alienígena impossível em segundos.

A trilha sonora, composta por Eduardo de la Iglesia, é discreta mas cirúrgica. Ela sabe quando se calar para deixar o silêncio e os sons ambientes criarem aquela tensão de “tem algo me observando”. E a dublagem? Impecável. Yuri Lowenthal (nosso eterno Spider-Man) entrega um Harry vulnerável e Mara Junot faz uma Evie cativante.

Embora não seja um primor técnico em termos de gráficos ultra-detalhados, o mérito do jogo reside na sua direção artística e na construção dos ambientes. Os cenários são extremamente bonitos sem depender do hiper-realismo, com a mansão na Nova Inglaterra transmitindo a sensação clássica lovecraftiana, e os ambientes congelados, desertos e cidades fora do tempo criando uma variedade visual marcante. A trilha sonora discreta e o uso inteligente do silêncio contribuem para um desconforto constante, onde o medo surge mais da sensação do desconhecido do que de sustos diretos. A dublagem, com atuações de Yuri Lowenthal, Cissy Jones e Mara Junot, é um ponto forte que ajuda a vender o peso emocional dos personagens e torna os diálogos mais naturais.

Resumindo…

Call of the Elder Gods é uma sequência corajosa. Ele não tenta ser um jogo de ação para atrair as massas; ele dobra a aposta no que o nicho de puzzles e narrativa ama. É um jogo contemplativo, inteligente e profundamente respeitoso com a obra de Lovecraft, inclusive ressignificando pontos problemáticos do autor original ao colocar uma mulher negra como protagonista em uma trama de horror cósmico.

No fim das contas, o jogo entende perfeitamente o público que quer atingir, focando em atmosfera, mistério, exploração e quebra-cabeças inteligente. Mesmo com certas limitações técnicas visuais e alguns puzzles mais exigentes, o conjunto final é envolvente e mostra uma sequência madura e bem construída para quem aprecia jogos mais contemplativos e investigativos. Ele consegue expandir a fórmula de Call of the Sea com mais ambição e mistério, entregando uma experiência que, apesar de alguns problemas de ritmo, mantém uma identidade forte e cativante.

Review: Call of the Elder Gods

A direção de arte e o som criam um mundo que você realmente quer explorar - 9
Quando você resolve aquele enigma difícil, a satisfação é genuína. - 9
Uma história que expande o universo de forma inteligente e emocionante. - 9
As atuações elevam o peso dramático de cada diálogo. - 8.5
O jogo demora para mostrar a que veio, o que pode afastar os mais impacientes. - 7.5
A alternância entre personagens poderia ter mais impacto no gameplay. - 7.5
Alguns desafios têm uma lógica um tanto obscura que beira o frustrante. - 7

8.2

Muito Bom!

Se você amou Call of the Sea, este é obrigatório. Se você nunca jogou, pode começar por aqui, mas recomendo dar uma olhada no primeiro para pegar todas as nuances. É uma jornada lenta, mas que recompensa quem tem paciência para decifrar os segredos dos deuses antigos.

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Eduardo Lino

Olá, Eu sou o Edu! Sou o criador do portal de notícias Gamer Spoiler. Apaixonado por games desde pequeno e jornalista nas horas vagas!
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