
Para quem viveu a era de ouro dos point-and-click nos anos 90, o nome Simon the Sorcerer evoca uma nostalgia ácida e cheia de sarcasmo. Lançado originalmente em 1993, o jogo se destacou por seu humor britânico seco e por ser um contraponto irreverente aos contos de fadas. Agora, a franquia retorna com Simon the Sorcerer Origins, uma prequel que, como o nome sugere, nos leva ao início de tudo. Desenvolvido pelo estúdio italiano Smallthing Studios e publicado pela ININ Games, este título não é apenas uma homenagem, mas uma tentativa de modernizar o gênero sem perder a essência. A aposta é alta: trazer o charme clássico para o console, provando que a aventura point-and-click ainda tem seu lugar na nova geração.
História: Antes da Túnica e do Sarcasmo Profissional
A história de Origins nos apresenta a um Simon ainda adolescente, preguiçoso, mal-humorado e recém-chegado a uma nova casa. A vida mundana do garoto é interrompida quando um portal mágico se abre, sugando-o para um mundo de fantasia. A premissa é clássica, mas o tratamento é moderno: o jogo é uma história de origem que se diverte com o fato de ser uma. Simon é rapidamente envolvido em uma profecia que o coloca na missão de encontrar os tomos do Primeiro Mago, um artefato cobiçado pelo vilão Sordid, que aqui aparece em uma versão menos ameaçadora, mas igualmente maligna. Ao longo da jornada, Simon encontra aliados carismáticos, como o excêntrico mago Calypso e o adorável cão Chippy. O grande trunfo da história é o humor. O jogo está repleto de referências à cultura pop (de Game of Thrones a Rickroll) e de quebras da quarta parede, onde Simon olha diretamente para o jogador, reclamando de ter que andar ou de nossas tentativas frustradas de resolver um puzzle. É um texto afiado e fiel ao espírito original, que conta até com o retorno do dublador clássico, Chris Barrie, garantindo a autenticidade do tom.
Gameplay e Mecânicas: A Arte de Apontar e Combinar

Simon the Sorcerer Origins é um point-and-click em sua forma mais pura: a jogabilidade se resume a explorar cenários, coletar itens, conversar com NPCs e, principalmente, combinar objetos de maneiras muitas vezes ilógicas para resolver quebra-cabeças. No console, a adaptação dos controles é notável. Em vez de um cursor lento, controlamos Simon diretamente com o analógico, e o sistema de hotspots (pontos de interesse) é simplificado: basta segurar o gatilho esquerdo para destacar todos os itens interativos na tela e usar os botões para alternar entre eles. Essa modernização de Qualidade de Vida (QoL) inclui também um botão para correr (embora não tenha tanta diferença com o caminhar de Simon) e um sistema de viagem rápida com alfinetes no mapa. A grande inovação mecânica reside no sistema de feitiços e nos chapéus mágicos. Simon aprende magias que podem ser usadas para alterar o ambiente ou as propriedades dos itens. Por exemplo, um feitiço de gelo pode transformar um líquido em algo sólido, abrindo novas possibilidades de combinação. Essa camada extra de interação com o inventário eleva o desafio e a criatividade exigida do jogador.
Desafios e Puzzles: O Divisor de Águas

O jogo não tem medo de ser difícil. Para os veteranos do gênero, isso é um elogio; para os novatos, pode ser um muro. Os puzzles são o coração do jogo e exigem uma observação minuciosa e, por vezes, um raciocínio lateral que beira o absurdo, marca registrada dos point-and-click clássicos. Não espere um sistema de dicas. A desenvolvedora optou por uma abordagem “raiz”, onde a satisfação vem de passar dias pensando em um problema e, de repente, ter um estalo. A dificuldade é intencional e serve como um filtro para quem busca uma experiência desafiadora. Os desafios são puramente intelectuais, culminando na resolução de situações complexas e no uso inteligente do inventário e dos feitiços.
Um Desenho Animado Jogável…

Visualmente, Origins é um deleite. O estilo é totalmente desenhado à mão, remetendo a um desenho animado de alta qualidade. As cores são vibrantes e o design dos personagens é expressivo, capturando perfeitamente a atmosfera de fantasia cômica. O jogo utiliza efeitos modernos de iluminação e sombras, dando profundidade e um toque contemporâneo ao visual 2D. A trilha sonora cumpre seu papel, mas o destaque absoluto é a dublagem. O retorno de Chris Barrie como Simon é um presente para os fãs e sua performance é o veículo perfeito para o humor ácido do protagonista. A localização para o Português do Brasil (PT-BR), tanto em menus quanto em legendas, garante que a riqueza dos diálogos e piadas não se perca.
Resumindo…

Simon the Sorcerer Origins é um retorno triunfal que equilibra nostalgia e inovação. É um jogo feito por fãs para fãs, que não se curva às tendências modernas de simplificação. Para quem sente falta dos desafios intelectuais e do humor descompromissado dos anos 90, este é um título obrigatório na sua biblioteca. A campanha é relativamente curta (cerca de 6 a 10 horas), mas a densidade dos puzzles garante que cada minuto seja bem aproveitado.
Review - Simon the Sorcerer Origins
Humor ácido e sarcástico, fiel ao original - 9.5
Visual charmoso e desenhado à mão - 9
Dublagem excelente de Chris Barrie - 9
Novas mecânicas de feitiços e chapéus - 8
Animações limitadas em alguns momentos - 7.5
Ausência de sistema de dicas (pode frustrar novatos) - 7.5
Caminhada lenta (mesmo com o botão de correr) - 7
Alguns puzzles são intencionalmente ilógicos - 6.5
8
Muito Bom!
Simon the Sorcerer Origins é um resgate corajoso e bem-sucedido de um clássico. É inteligente, engraçado e desafiador. Se você está disposto a aceitar o desafio dos puzzles à moda antiga e apreciar um bom humor britânico, esta aventura no Xbox é altamente recomendada.

