A maratona de grandes remakes da Square Enix continua a todo vapor. Depois de agraciar os jogadores de PlayStation, Switch e PC em 2024, o lendário e peculiar Romancing SaGa 2 finalmente desembarca no Xbox com sua recriação completa, intitulada Romancing SaGa 2: Revenge of the Seven. Lançado originalmente em 1993 para o Super Nintendo, este é um daqueles JRPGs que, por décadas, permaneceu como um tesouro cult, reverenciado no Japão, mas pouco acessível ao público ocidental. Agora, totalmente refeito em 3D e com uma série de modernizações, o jogo não apenas se torna uma porta de entrada fantástica para a ousada franquia SaGa, mas também se firma como um dos RPGs mais únicos e gratificantes da atualidade.
A série SaGa, concebida pelo visionário Akitoshi Kawazu, sempre foi o “laboratório de experimentos” da Square. Enquanto Final Fantasy e Dragon Quest solidificavam as convenções do gênero, SaGa as quebrava com sistemas não lineares, progressão de personagem atípica e uma liberdade quase assustadora. E Romancing SaGa 2 é, talvez, o expoente máximo dessa filosofia. Será que essa fórmula, tão à frente de seu tempo, ainda ressoa em 2025? Após cruzar gerações e derrotar heróis caídos, posso afirmar com segurança: a resposta é um retumbante sim.
Uma Coroa Pesada Através das Gerações
A premissa de Romancing SaGa 2 é, por si só, uma quebra de paradigma. Você não controla um único herói, mas uma dinastia inteira. A história começa com Leon, o imperador de Varennes, que vê seu reino ameaçado por monstros e, pior ainda, pelos Sete Heróis, figuras lendárias que salvaram o mundo no passado, mas que retornaram corrompidas e em busca de vingança. Em um confronto inicial devastador, Leon e seu primogênito, Victor, perdem a vida para um dos Heróis, Kzinssie. Antes de morrer, porém, Leon usa uma magia ancestral para passar suas habilidades e sua missão para seu filho mais novo, Gerard.
Assim nasce o Sistema de Legado, a mecânica central do jogo. Seu imperador eventualmente morrerá, seja em batalha ou pela passagem do tempo, e você deverá escolher um sucessor entre uma vasta gama de classes de personagens. Esse novo líder herdará as habilidades e o conhecimento dos antecessores, continuando a luta através de séculos. Essa estrutura narrativa é fascinante, pois cria um desapego dos personagens individuais e foca na construção de um império duradouro. Cada escolha, cada território conquistado e cada Herói derrotado molda o futuro do seu reino, tornando cada partida uma experiência única.
A Batalha é uma Arte, a Morte é uma Lição

Se a história é o esqueleto, o combate é o coração pulsante de Romancing SaGa 2. O sistema de batalhas por turnos foi refinado nesta nova versão, adotando uma linha do tempo que torna a estratégia ainda mais crucial. Aqui, não há o tradicional sistema de “níveis”. Em vez disso, os personagens aprimoram suas proficiências com diferentes tipos de armas e magias conforme as utilizam. Seus pontos de vida (HP) e pontos de técnica (TP/BP) aumentam após as batalhas, mas a verdadeira evolução está no “Glimmer”.
No calor da batalha, um personagem pode ter uma inspiração súbita e aprender uma nova técnica com a arma que está empunhando. Essa habilidade recém-adquirida fica permanentemente disponível para a sua dinastia, podendo ser equipada por futuros guerreiros. É um sistema incrivelmente recompensador, que incentiva a experimentação com diferentes armas e formações táticas. As formações, aliás, são vitais, oferecendo bônus e posicionamentos estratégicos que podem virar o jogo.
Um Império de Heróis (e Vilões Memoráveis)

A galeria de personagens é vasta, com mais de 30 classes para recrutar, desde soldados e magos até nômades e ninjas. Embora a maioria funcione como avatares para o jogador, cada classe tem suas próprias aptidões e pode desbloquear formações únicas. Do outro lado, os Sete Heróis são vilões fantásticos. Kzinssie, com seu ataque mortal “Soul Steal”; Rocbouquet, que seduz e confunde seus oponentes; e o poderoso Wagnus são apenas alguns dos desafios que esperam por você. Cada um comanda uma região do mapa e possui motivações e poderes distintos, exigindo estratégias específicas para serem derrotados. O remake adiciona mais contexto à sua história, aprofundando o lore por trás de sua corrupção e desejo de vingança.
Explorando o Mundo e Construindo um Legado

A exploração em Revenge of the Seven é feita em 3D, com o mundo dividido em regiões que podem ser acessadas através de um mapa. A estrutura não linear do jogo significa que, após o prólogo, você tem liberdade para decidir qual Herói enfrentar e qual território libertar primeiro. Suas ações têm consequências: salvar uma cidade pode abrir uma nova rota comercial, enquanto ignorar um pedido de ajuda pode levar à destruição de um vilarejo.
Paralelamente, você deve gerenciar e expandir Avalon, a capital do seu império. Investir em estruturas como a Ferraria, a Universidade de Magia ou a Universidade desbloqueia novos equipamentos, feitiços e, o mais importante, novas classes de personagens para herdar o trono. Ver sua capital crescer de uma pequena cidade para uma metrópole próspera é uma das sensações mais gratificantes do jogo.
A Curva de Dificuldade e o “Grinding Inteligente”

Romancing SaGa 2 é um jogo difícil. Os inimigos escalam de poder junto com você, um sistema que pode ser punitivo para os desavisados. O “grinding” tradicional, de passar horas matando monstros fracos, não só é ineficaz como pode ser prejudicial, fortalecendo os inimigos mais rápido do que você. O segredo é o “grinding inteligente”: focar em batalhas que ofereçam a chance de aprender novas técnicas e explorar novas áreas para encontrar equipamentos melhores.
As lutas contra os chefes são o verdadeiro teste de sua preparação. Elas exigem um domínio profundo das mecânicas, uma formação de equipe bem pensada e um gerenciamento cuidadoso dos recursos. A sensação de finalmente derrotar um dos Sete Heróis após várias tentativas é imensurável. Para os novos jogadores, o remake felizmente inclui modos de dificuldade ajustáveis (Casual, Normal e Clássico), permitindo que cada um encontre o nível de desafio ideal.
Gráficos e Trilha Sonora: Um Remake com Alma

Visualmente, Revenge of the Seven é um salto gigantesco em relação ao original de 16-bits. Os modelos 3D dos personagens e inimigos são charmosos, mantendo a identidade artística de Tomomi Kobayashi. Embora não seja um primor técnico com gráficos ultrarrealistas, o estilo de arte funciona muito bem e moderniza o clássico de forma competente.
No Xbox Series, o jogo roda com boa performance, embora algumas telas de carregamento entre áreas possam ser um pouco longas. A trilha sonora, composta pelo lendário Kenji Ito, é simplesmente fenomenal. Temas como “The Seven Heroes’ Theme” e “Last Battle” são icônicos e inesquecíveis. O remake oferece a opção de alternar entre as faixas originais e as novas versões rearranjadas pelo próprio Ito, um deleite tanto para novatos quanto para veteranos.
Veredito: Vale a Pena?

Romancing SaGa 2: Revenge of the Seven é um exemplo magistral de como fazer um remake. Ele preserva a alma e os sistemas complexos que tornaram o original um clássico cult, ao mesmo tempo em que implementa melhorias de qualidade de vida cruciais — como um rastreador de missões, dublagem em inglês e japonês e tutoriais mais claros — que o tornam acessível para uma nova geração. É um JRPG que exige paciência e dedicação, mas que recompensa o jogador com uma liberdade e profundidade raramente vistas no gênero. A estrutura de gerações, a progressão não convencional e a narrativa não linear o tornam uma experiência única e memorável.
Sistema de Legado e narrativa não linear - 9.5
Combate estratégico, profundo e recompensador - 9.5
Liberdade de exploração e gerenciamento do império - 9
Excelente porta de entrada para a franquia SaGa - 8.5
A dificuldade e o sistema de escalonamento podem frustrar iniciantes - 7.5
Telas de carregamento poderiam ser mais rápidas - 7
8.5
Muito Bom!
Romancing SaGa 2: Revenge of the Seven é um exemplo magistral de como fazer um remake. Ele preserva a alma e os sistemas complexos que tornaram o original um clássico cult, ao mesmo tempo em que implementa melhorias de qualidade de vida cruciais.