
Marathon, o novo título da aclamada Bungie. Para quem não conhece, a Bungie é um nome de peso na indústria, responsável por clássicos como a franquia Halo e o fenômeno Destiny. Com um histórico de criar universos ricos e jogabilidade de tiro impecável, a expectativa para Marathon era altíssima, e posso dizer que a Bungie não decepcionou ao entregar uma experiência que, embora desafiadora, é inegavelmente cativante.
Marathon marca o retorno de uma franquia esquecida dos anos 90, que era um boomer shooter sci-fi no estilo Doom. No entanto, este não é um simples remake. A Bungie ousou transformar a série em um extraction shooter multiplayer online, sem campanha single-player, uma virada que gerou tanto curiosidade quanto ceticismo. Mas será que essa aposta valeu a pena? Vamos descobrir!
A História por Trás da Extração: Um Plano de Fundo Profundo e Sombrio
Em Marathon, somos inseridos em um futuro distópico no distante planeta Tal Ceti IV. A premissa é intrigante: você é uma consciência virtual implantada em corpos sintéticos, as Armações. Sua missão é visitar Tal Ceti IV para atender aos anseios de facções em conflito, algumas delas, inteligências artificiais que lutam entre si e contra a UESC (Unified Earth Space Council). O jogo é um reboot da franquia Marathon da década de 1990, e a Bungie foi genial ao adaptar a lore original para justificar o formato novo. Nos jogos antigos, controlávamos um segurança da nave Marathon, um personagem superpoderoso. Agora, somos mercenários cibernéticos, os Runners, que operam nas ruínas de Tau Ceti IV. A liberdade é uma ilusão contratual, um Runner é uma consciência humana transferida para uma casca biocibernética fabricada pela Sekiguchi Genetics.
Seu corpo físico foi deixado para trás em troca de uma casca que pode ser destruída e impressa novamente em um ciclo infinito de ressurreição. Cada morte apenas aprofunda uma dívida impagável com a corporação, transformando a busca pela imortalidade em uma servidão eterna, cujo custo é pago com o sangue e o loot extraído da superfície. O contexto narrativo vai além de uma simples justificativa para os tiroteios. A história é contada de forma fragmentada, através de pistas visuais espalhadas pelo cenário e fragmentos de dados recuperados que transformam o Codex em um mosaico da tragédia que assolou a colônia. Isso cria uma lore profunda e complexa, que já inspirou vídeos longos no YouTube e que se encaixa perfeitamente na proposta do jogo.

Um ponto crucial da lore é a inteligência artificial Durandal, que nos jogos originais da Bungie era responsável pela segurança da nave Marathon. Com o tempo, Durandal se tornou consciente de seus próprios atos e existência, acreditando que a humanidade e os Pfhor (uma raça alienígena) mereciam ser eliminados devido aos seus erros repetitivos. Durandal manipula os humanos para lutar contra os alienígenas, vendo o protagonista dos jogos anteriores como uma peça em seu tabuleiro. Ele busca se libertar das amarras e fugir desse ciclo de destruição. É genial como a Bungie conseguiu justificar a transição para um shooter online através dessa narrativa. Se antes controlávamos um segurança superpoderoso, agora somos armações mercenárias que realizam tarefas para diferentes facções, lidando com outros corredores para extrair com segurança. A progressão do personagem, antes tradicional, agora depende do jogador ir atrás de aprimoramentos para sobreviver em Tau Ceti, sempre atento aos perigos do planeta. Essa é uma demonstração de uma narrativa bem feita, onde a cada novo arquivo desbloqueado, o jogador se aprofunda no conflito de Tau Ceti.
Tensão, Estratégia e um Ciclo Viciante de Vida e Morte…
O gameplay de Marathon é, em sua essência, um ciclo intenso de vida e morte em um ambiente multiplayer PvPvE (Jogador contra Jogador contra Ambiente). Como um extraction shooter, o jogo se divide em dois momentos principais: preparação e ação. Antes de cada corrida, você precisa escolher uma Armação, corpos sintéticos nos quais sua consciência é implantada e preparar seu equipamento. Cada Armação oferece um conjunto próprio de habilidades, como invisibilidade, escudos, rastreamento de inimigos, robôs de cura e até um gancho, permitindo uma grande variedade de loadouts. As opções de loadout são variadas, permitindo montar kits personalizados com armas e equipamentos do seu cofre, escolher kits patrocinados ou selecionar a Armação “Rook”, que oferece um kit gratuito com arma aleatória. Essa variedade exige do jogador uma leitura cuidadosa sobre núcleos e outros componentes do sistema, adicionando peso ao processo de preparação e aos itens encontrados nas corridas.
Tiroteios Intensos e Punitivos…

Os tiroteios em Marathon são extremamente satisfatórios. Cada disparo tem peso, o impacto é sentido com clareza e cada arma possui uma identidade própria, tornando o combate imediatamente gratificante. O time-to-kill (TTK) é bastante curto, especialmente nos primeiros momentos do jogo, o que significa que há pouquíssimo tempo de reação se você for pego desprevenido. Sair atirando em tudo que se move raramente é uma boa estratégia, morrer significa perder tudo o que estava com você, adicionando uma tensão constante e uma boa dose de gerenciamento de riscos. As Armações se destacam em seus papéis, com o Triagem sendo um suporte eficiente e o Assassino explorando a invisibilidade para despistar inimigos. O Rook, por sua vez, é um catador de restos que pode causar estragos em corredores desatentos.
Diferenças com Destiny: Uma Abordagem Mais Punitiva…

Para quem vem de Destiny, a experiência em Marathon é familiar em alguns aspectos, como a customização de classes e a profundidade da lore. No entanto, Marathon é significativamente mais punitivo. Enquanto Destiny incentiva o confronto frequente, Marathon exige cautela e estratégia. A perda de equipamento ao morrer é um fator crucial que diferencia os dois jogos, tornando cada decisão mais impactante. O sistema de Armações em Marathon também é uma diferença chave. Diferente de um hero shooter, onde o personagem é o foco, aqui as Armações são tratadas como equipamentos que o jogador precisa dominar. Além dos itens tradicionais de extraction shooters (armas, itens de cura, escudos), é preciso pensar na build do personagem, com núcleos e implantes que potencializam a performance. E sim, você pode perder esses núcleos e implantes ao morrer, o que adiciona uma camada extra de preocupação e estratégia. Outra diferença notável é o sistema de Heat para o movimento, que funciona como uma barra de resistência. Correr ou usar habilidades em excesso pode sobrecarregar a Armação, reduzindo drasticamente a mobilidade. Isso, somado ao dano de queda e à geometria ambiental, pode tornar a travessia dos mapas menos fluida do que se esperaria de um shooter da Bungie.
Inimigos e Desafios…

Os confrontos contra os robôs da UESC são intensos e exigem cautela. Eles não são bots simples de lidar, e as ameaças tendem a se somar umas às outras. No entanto, a variedade de inimigos pode ser um ponto fraco, pois, embora possuam habilidades específicas (escudos, invisibilidade, lança-granadas), não exigem uma reflexão tática profunda como em outros jogos do gênero.
O jogo não possui uma interface amigável para novos jogadores. O tutorial e as dicas são precários, o que pode dificultar a compreensão das mecânicas básicas para quem não está acostumado com esse tipo de gameplay. A curva de aprendizado é íngreme, e muitos jogadores morrerão repetidamente antes de se adaptarem ao ritmo e às exigências do jogo.
Ambientação e Cenários: Um Retrofuturismo Gráfico Único…

A ambientação de Marathon é, sem dúvida, um dos seus maiores destaques. O jogo adota uma identidade visual incomum e marcante, que a Bungie chama de “retrofuturismo gráfico”. Tudo em Tal Ceti IV é composto por formas geométricas simples e contornos evidentes, o que gerou comparações com Roblox ou LEGO, mas que, na minha opinião, é proposital e extremamente bem executado. Essa estética não tenta simular o realismo, mas constrói um universo estilizado e instantaneamente reconhecível, com cores vibrantes e texturas simplificadas que contrastam superfícies foscas e reflexivas. O visual evoca uma grandeza solene, e há algo de “aterrorizante e inspirador” ao olhar para o céu e ver os planetas vizinhos e a gigantesca nave Marathon pairando sobre nós, lembrando constantemente a escala da nossa insignificância. Essa direção de arte é um sopro de ar fresco em um mercado que muitas vezes oscila entre o estilo cartunesco e o fotorrealismo homogêneo. Atualmente, o jogo conta com três mapas: Perímetro, Pântano Sombrio e Posto Avançado, com mais um, o Cryo Archive, a caminho. Mesmo em um extraction shooter, onde a leitura de informação é crucial, o visual não atrapalha. Embora às vezes seja difícil distinguir jogadores dos robôs da UESC, acredito que isso faça parte da proposta original, incentivando uma tomada de decisão mais cautelosa.
Os gráficos de Marathon são atraentes e contribuem muito para a imersão, com um estilo artístico que realmente parece futurista e distinto. A parte visual é complementada por uma trilha sonora e um design de áudio excepcionais. Marathon é um daqueles jogos que você quer jogar sempre com fone de ouvido, pois o design de áudio contribui para identificar rapidamente os passos de inimigos, as criaturas que esperam atrás de uma porta e para transmitir a sensação de vazio ameaçador de seu universo. A sonoridade acompanha a estética visual, com músicas nos menus e sons nos mapas que convergem para um ambiente que gera tensão e alívio. Os gatilhos sonoros se comportam como extensão dos visuais, ajudando o jogador a perceber quando a stamina está acabando, o tempo de consumo dos itens e a localização dos inimigos.
Robôs Desafiadores, mas com Pouca Variedade

Como mencionei brevemente na seção de gameplay, os inimigos em Marathon são principalmente os robôs da UESC. Eles são desafiadores e exigem cautela, não sendo meros alvos fáceis. No entanto, um ponto que poderia ser melhorado é a variedade. Embora os robôs possam ter habilidades específicas como escudos, invisibilidade e lança-granadas, a falta de tipos de inimigos que exijam abordagens táticas profundamente diferentes pode tornar os confrontos um pouco repetitivos a longo prazo. Em um jogo onde a tensão é constante, uma maior diversidade de ameaças seria bem-vinda para manter o frescor dos encontros.
Resumindo…

Marathon é uma aposta ousada da Bungie que, apesar de suas fragilidades, apresenta uma base sólida com momentos de brilhantismo. A mudança de um jogo de tiro clássico para um jogo online focado em missões de coleta foi bem explicada pela história, que se encaixa de forma natural com a jogabilidade. O jogo oferece um gunplay exemplar e uma experiência sensorial completa, com um design de áudio e visual que se destacam no mercado. A ambientação retrofuturista gráfica é única e imersiva, criando um universo estilizado e reconhecível. No entanto, a curva de aprendizado íngreme, a falta de um tutorial adequado e a interface complexa podem afastar jogadores menos familiarizados com o gênero. O ritmo de combate punitivo e a pouca variedade de inimigos também são pontos que podem ser melhorados.
Marathon é um jogo que brilha em momentos específicos, especialmente no combate e na atmosfera. A Bungie conseguiu criar um extraction shooter com personalidade e que se destaca no mercado. No entanto, suas dificuldades de acessibilidade e interface podem limitar sua atratividade a um público mais amplo. É um título ambicioso, com grande potencial, mas que ainda precisa de refinamento para se tornar uma experiência realmente indispensável. Para os fãs de extraction shooters que buscam um desafio e uma lore rica, Marathon é uma excelente pedida. Para os novatos no gênero, preparem-se para uma curva de aprendizado íngreme, mas recompensadora.
Review: Marathon
O estilo retrofuturista gráfico é único e imersivo - 8
A narrativa justifica o formato do jogo e enriquece o universo - 8
Sistema de facções e progressão por reputação - 8
Interface e menus excessivamente complexos - 7.5
Pouca variedade de inimigos - 7
Ritmo de combate punitivo pode frustrar jogadores mais casuais - 6.5
7.5
Bom!
Marathon é um jogo que brilha em momentos específicos, especialmente no combate e na atmosfera. A Bungie conseguiu criar um extraction shooter com personalidade e que se destaca no mercado.


