Antes de falarmos de polígonos e taxas de quadros, precisamos falar de sentimento. Para quem viveu o auge do PlayStation e do PlayStation 2, o nome
Tony Hawk’s Pro Skater evoca uma memória sensorial quase palpável. É o som do CD girando no console, a vinheta da Neversoft e, em seguida, a explosão sonora de “Guerilla Radio” ou “When Worlds Collide”. Este remaster hipotético não vende apenas um jogo; ele vende uma passagem de volta para uma época mais simples.
A curadoria da trilha sonora sempre foi um pilar da série, apresentando para muitos de nós bandas como Goldfinger, Bad Religion e Motörhead. A nostalgia de tentar emular as linhas impossíveis de Chad Muska, com seu estilo “boombox no ombro” e manobras cheias de atitude, é o motor inicial para qualquer fã veterano. Era mais do que um jogo; era um portal para a cultura do skate, da música punk rock e do hip-hop alternativo.
O Primeiro Contato: Tutorial e Acessibilidade…
O jogo começa de forma inteligente. O próprio Tony Hawk, agora um ícone grisalho e respeitado, guia o jogador pelos comandos básicos. “Aperte para baixo e X para dar um Ollie, depois um direcional para um Flip”. Para a nova geração, que talvez nunca tenha tocado em um THPS, é um tutorial essencial e acolhedor. Para nós, os veteranos, é um ritual. Pulamos as instruções, mas apreciamos o gesto.
A nossa memória muscular já está gritando, e a única coisa que queremos é encontrar o primeiro corrimão para mandar um grind longo e barulhento. A grande verdade é que, embora visualmente renovado, este remaster é, em sua essência, um produto reciclado. E isso não é uma crítica. Seu principal público-alvo são os jogadores que já conhecem cada segredo do Hangar, cada gap do School II. Somos nós, que vamos pular os tutoriais e ir direto ao que interessa.
Gameplay: A Perfeição do “Easy to Learn, Hard to Master”…

Aqui, o jogo brilha intensamente. A Vicarious Visions, que fez um trabalho magistral em THPS 1+2, estabeleceu um padrão de como modernizar um clássico sem trair sua alma. Podemos imaginar que a mesma filosofia seria aplicada aqui. O gameplay é consistente, dinâmico e brutalmente punitivo. A fórmula central permanece intacta: você tem um objetivo, geralmente baseado em pontuação, e precisa usar o cenário como uma tela para pintar sua obra-prima de combos.
Um ollie, um kickflip, um grind no corrimão, um pulo para um manual, um revert na aterrissagem para não quebrar o combo, e tudo isso em segundos. Cada deslize, cada aterrissagem mal calculada, e todo o seu esforço se desfaz em um baque seco no concreto. A culpa? É inteiramente sua. Tony Hawk’s sempre foi um jogo de xadrez em alta velocidade. Você precisa conhecer o terreno, antecipar as linhas e executar com precisão cirúrgica.

Os comandos são um deleite. As manobras saem com uma suavidade amanteigada, e a adição de mecânicas posteriores da série, como o Revert (do THPS3) e o Spine Transfer (do THPS4), integradas a todas as fases, cria um sistema de combos quase infinito.Tecnicamente, no Xbox Series S, o jogo se mantém firme em 60 quadros por segundo, essencial para a precisão exigida.
As texturas dos cenários não são de ponta, mas a direção de arte compensa, com uma iluminação vibrante e modelos de personagens detalhados. As novas fases, como o parque aquático e a arena de pinball, são explosões de criatividade e oferecem desafios únicos.
A Encruzilhada do Design: Onde o Remaster Tropeça…

Este é o ponto mais crítico e controverso da análise. A fusão de dois jogos com filosofias de design distintas criou um paradoxo.
- A Estrutura de THPS3: Clássica, direta e focada. Corridas de 2 minutos. Objetivos claros e cronometrados. É a fórmula pura do arcade, que exige repetição e memorização para otimizar cada segundo.
- A Revolução de THPS4: Um salto de fé para a franquia. O jogo abandonou o cronômetro principal em favor da exploração livre. Você andava pelo mapa, descobria segredos no seu próprio ritmo e ativava missões ao interagir com NPCs. Foi um passo em direção a um mundo aberto, que deu aos cenários uma sensação de lugar, de ambiente vivo.
O remaster, em uma decisão questionável, opta por padronizar tudo sob a estrutura de 2 minutos do THPS3. O resultado é uma faca de dois gumes. Por um lado, a experiência se torna mais coesa e intensamente focada na ação. Por outro, representa uma regressão, um passo para trás em relação à evolução que o THPS4 trouxe.
Panteão do Skate: Lendas, Ícones e o Futuro…

O elenco é uma carta de amor ao skate. Ver lendas como Bob Burnquist, Steve Caballero, Kareem Campbell e Elissa Steamer lado a lado com a nova guarda é emocionante. A inclusão da brasileira Rayssa Leal, um fenômeno global, é um toque de mestre, conectando o passado e o presente do esporte.
E os personagens secretos? Eles são a cereja do bolo. Ter Michelangelo das Tartarugas Ninja executando um 900 ou o brutal Doom Slayer fazendo um grind é o tipo de loucura divertida que só a série Tony Hawk’s pode proporcionar.
Trilha Sonora…

A trilha sonora sempre foi uma das marcas registradas da franquia Tony Hawk’s Pro Skater, ajudando a criar a atmosfera única que marcou gerações. No entanto, em Tony Hawk’s Pro Skater 3+4 Remaster, apenas 10 músicas clássicas dos jogos originais foram mantidas, com o restante sendo substituído por faixas inéditas.
Embora algumas dessas novas músicas funcionem bem no contexto do jogo, nenhuma consegue replicar o mesmo impacto das originais. Tony Hawk comentou que a ideia era abrir espaço para novas bandas e dar visibilidade a artistas atuais — uma decisão que pode fazer sentido do ponto de vista comercial. No entanto, para quem viveu intensamente a era dourada da franquia, a sensação é de que falta algo.
A trilha sonora original era parte essencial da identidade de Tony Hawk’s Pro Skater; aqui, apesar do esforço em modernizar, ela soa incompleta e um pouco distante da nostalgia que muitos esperavam reviver.
A Longevidade Infinita: Criação e Competição…

O modo Create-A-Park retorna, mais robusto do que nunca. A capacidade de criar parques insanos e compartilhá-los com a comunidade online garante uma sobrevida quase infinita ao jogo. É uma ferramenta poderosa que transforma cada jogador em um level designer.
O multiplayer local de tela dividida é nostalgia pura, reacendendo rivalidades antigas no sofá de casa. O modo online e os placares de líderes globais, por sua vez, são um lembrete humilhante de que, não importa o quão bom você ache que é, sempre haverá alguém capaz de fazer um combo de 200 milhões de pontos.
Veredito Final: Vale a Pena o Ingresso?

Tony Hawk’s Pro Skater 3 + 4 Remaster é um pacote fenomenal, mas imperfeito. É uma celebração de uma era de ouro dos videogames, com um gameplay que se mantém tão viciante e recompensador hoje quanto há 20 anos. A decisão de design de abandonar a estrutura do THPS4 é um golpe para os puristas, mas não o suficiente para arruinar a experiência. Compra obrigatória para qualquer fã da franquia ou de jogos de esporte arcade.
A quantidade e a qualidade do conteúdo oferecido são imensas. Para os novatos, é a porta de entrada perfeita para entender por que esses jogos são considerados obras-primas. Apesar de sua falha conceitual, o remaster hipotético de Tony Hawk’s Pro Skater 3 + 4 seria um dos pacotes de maior valor e diversão no mercado, um lembrete poderoso de que um ótimo design de jogo é, de fato, atemporal.
Gameplay atemporal - 9.5
Elenco estelar que celebra toda a história do skate - 9.5
Modo de criação de parques garante longevidade infinita. - 9
Inclusão de multiplayer local e online robusto. - 9
Abandono da estrutura de exploração livre do THPS4 é uma regressão. - 7.5
Gráficos dos cenários são funcionais, mas não impressionam tecnicamente. - 7.5
Trilha sonora poderia ser melhor - 7.5
8.5
Muito Bom!
Tony Hawk's Pro Skater 3 + 4 Remaster é um pacote fenomenal, mas imperfeito. É uma celebração de uma era de ouro dos videogames, com um gameplay que se mantém tão viciante e recompensador hoje quanto há 20 anos. A decisão de design de abandonar a estrutura do THPS4 é um golpe para os puristas, mas não o suficiente para arruinar a experiência.