Preparem-se para uma viagem no tempo, não para um mundo de fantasia com dragões e magias, mas para a brutal e fascinante Boêmia do século XV. Recebi em mãos a versão de nova geração de Kingdom Come: Deliverance para PS5 e Xbox Series, e posso dizer que a Warhorse Studios nos entregou uma experiência ainda mais imersiva e visualmente deslumbrante. Se você, assim como eu, é fã de RPGs que ousam ir além do convencional, continue lendo, porque temos muito o que desbravar!
O Retorno de um Clássico Realista…
Kingdom Come: Deliverance não é um RPG qualquer. Lançado originalmente em 2018, o título da Warhorse Studios, uma equipe formada por veteranos da indústria com passagens por jogos como Mafia e Operation Flashpoint, sempre se destacou por sua abordagem implacavelmente realista do período medieval. Esqueça as bolas de fogo e os heróis predestinados; aqui, a sobrevivência é uma arte, e a história é escrita com suor e sangue, não com encantamentos.
Agora, em 2026, a Warhorse Studios, que hoje faz parte da família THQ Nordic/Embracer Group, nos presenteia com uma atualização nativa para os consoles de nova geração. E as melhorias não são poucas: estamos falando de resolução 4K, um rácio de fotogramas superior e mais estável (finalmente, 60 FPS!), texturas aprimoradas e tempos de carregamento drasticamente reduzidos graças aos SSDs dos novos consoles. Para quem já possuía o jogo no PS4 ou Xbox One, essa atualização é um presente, chegando sem custos adicionais. E para os colecionadores, uma versão física está a caminho em maio de 2026.
Uma Jornada de Vingança e Amadurecimento…

Em Kingdom Come: Deliverance, você assume o papel de Henry, o filho de um ferreiro de uma pequena vila na Boêmia. Sua vida pacata é virada de cabeça para baixo quando mercenários invadem e destroem seu lar, matando sua família no processo. O motivo? Intrigas políticas entre o Rei Wenceslaus e seu meio-irmão, Sigismund, que busca o controle das minas de prata da região. Henry, um jovem comum, sem habilidades de combate ou qualquer tipo de treinamento, é lançado em uma jornada de vingança e autodescoberta que o levará pelos campos e castelos da Europa medieval.
O que torna Henry tão cativante é justamente sua humanidade. Ele não é um herói, não tem um destino grandioso traçado, e muito menos sabe empunhar uma espada ou ler um livro. Sua evolução é orgânica e totalmente dependente das suas ações como jogador. Você o verá tropeçar, falhar e, eventualmente, se erguer, aprendendo com cada erro e cada vitória. A introdução do jogo, inclusive, oferece uma pequena aula de história sobre o Rei Charles IV e seu filho Wenceslaus IV, contextualizando o cenário político da época.
Gameplay e o Desafio do Realismo…

A jogabilidade de Kingdom Come: Deliverance é onde o realismo brilha (e às vezes frustra). Este não é um RPG onde você pode sair clicando em tudo e esperando o melhor. Henry tem necessidades básicas como fome, sono e higiene, e ignorá-las pode ter consequências sérias, afetando seu desempenho em combate e até mesmo em diálogos. A reputação é tudo, e suas escolhas moldam como o mundo reage a você. Atrasar-se para uma missão, ser pego roubando ou andar com roupas sujas, tudo isso tem um impacto real na sua jornada. A forma como Henry se apresenta, com trajes e o estado das roupas, afeta diretamente conversas e negociações. O sistema de combate é, sem dúvida, um dos pontos mais divisivos e, ao mesmo tempo, mais elogiados do jogo. Esqueça os combates frenéticos de outros RPGs. Aqui, cada golpe, cada defesa, cada movimento é calculado.
O combate é baseado em física e na direção dos ataques, exigindo paciência, estratégia e muito treino. Henry começa sem saber lutar, e você sentirá o peso de sua inexperiência. Equipamentos pesados limitam sua agilidade, e usar uma arma sem o devido treinamento pode ser pior do que não usá-la. Não há um sistema de classes tradicional; Henry se molda pelas suas ações, seja ele um guerreiro, um ladrão sorrateiro ou um diplomata habilidoso. A personalização é profunda, permitindo vestir Henry em camadas, com camisas, cotas de malha e armaduras de metal, além de capuzes e elmos.
No entanto, nem tudo são flores. Alguns minigames, como abrir cadeados, furtar ou amolar espadas, são um tanto complicados, pouco intuitivos e frustrantes. O uso do arco e flecha também é um desafio à parte, sem cursor de mira e com as mãos do personagem balançando, exigindo muito treino para dominar.
Ambientação e Cenários Vivos…

A Boêmia do século XV é recriada com um nível de detalhe impressionante. Castelos imponentes, florestas densas, vilarejos movimentados e campos floridos compõem um cenário que parece ter saído de um livro de história. A atenção aos detalhes é notável: você ouvirá o burburinho dos moradores, o som dos cascos dos cavalos, o martelar do ferreiro e até mesmo o nascer do sol, tudo contribuindo para uma imersão sem igual. As cidades seguem um ciclo diário rigoroso, e a pontualidade é crucial para o sucesso de muitas missões. O mapa é vasto e os locais são pensados de forma coerente, com algumas missões utilizando descrições precisas para guiar o jogador, incentivando a exploração manual.
Uma pedra no sapato…

A dificuldade de Kingdom Come: Deliverance é alta, especialmente no início. O combate é punitivo, e enfrentar múltiplos inimigos é quase sempre uma sentença de morte para um Henry inexperiente. Não espere batalhas épicas contra chefes no sentido tradicional de outros RPGs. Os desafios aqui são mais orgânicos, surgindo de situações realistas e exigindo que você use sua inteligência, furtividade ou habilidades de persuasão, além da força bruta.
Um dos maiores desafios, e também uma fonte de frustração, é o sistema de salvamento. Você só pode salvar o jogo dormindo em uma cama própria ou usando um item consumível chamado “Saviour Schnapps”, que é caro e difícil de fabricar no início. Isso, combinado com a dificuldade do combate e a presença de bugs (que, embora menos frequentes na versão de nova geração, ainda podem aparecer), pode levar a momentos de pura raiva ao perder horas de progresso.
Um Banquete para os Sentidos…

Visualmente, Kingdom Come: Deliverance sempre foi um jogo bonito, mas na nova geração ele realmente brilha. A resolução 4K e as texturas aprimoradas dão vida aos cenários e personagens de uma forma que antes não era possível. Os detalhes das armaduras, as expressões faciais (com algumas exceções de movimentos mais “duros” ) e a iluminação dinâmica contribuem para uma experiência visual rica e envolvente. A trilha sonora é impecável, transportando você diretamente para a era medieval com suas melodias autênticas e atmosféricas. A dublagem dos personagens também é de alta qualidade, adicionando profundidade à narrativa. No entanto, é importante notar que os modelos de personagens podem ser medianos e ter animações questionáveis, com NPCs genéricos que se repetem.
As Novidades da Versão 2026…

Como mencionei, a grande estrela desta versão de 2026 são as melhorias técnicas. O jogo roda em 4K nativo, com 60 FPS estáveis, o que transforma completamente a fluidez da experiência. As texturas estão mais nítidas, os tempos de carregamento são quase inexistentes, e a imersão é elevada a um novo patamar. É a maneira definitiva de experimentar a história de Henry. Além disso, a atualização inclui anti-aliasing e suporte a FSR (FidelityFX Super Resolution) para melhor desempenho e qualidade de imagem, e otimização de ativos do console. Houve também a adição de suporte de voz para tcheco e japonês, e legendas para turco, ucraniano e português.
Resumindo…

Kingdom Come: Deliverance é uma obra-prima para quem busca uma experiência RPG diferente, focada no realismo histórico e na imersão. A jornada de Henry é desafiadora, recompensadora e, por vezes, frustrante, mas sempre cativante. A versão de nova geração aprimora significativamente a experiência técnica, tornando-a mais acessível e agradável para novos e antigos jogadores. Apesar de alguns bugs persistentes e um sistema de salvamento punitivo, a experiência geral é profundamente imersiva e gratificante.
Kingdom Come: Deliverance na sua versão de nova geração é um jogo que merece ser jogado. É uma experiência única, que desafia as convenções dos RPGs e oferece uma imersão sem igual. As melhorias técnicas o tornam ainda mais atraente, e a jornada de Henry é uma que ficará na sua memória por muito tempo. Prepare-se para suar a camisa, mas também para se apaixonar por este pedaço da história dos games.
Realismo Histórico Imersivo - 9.5
Narrativa Cativante - 9.5
Gameplay Desafiador e Recompensado - 9
Gráficos e Ambientação - 8
Curva de Aprendizado Íngreme - 7.5
Linearidade em Certos Aspectos - 7
8.4
Muito bom!
Kingdom Come: Deliverance na sua versão de nova geração é um jogo que merece ser jogado. É uma experiência única, que desafia as convenções dos RPGs e oferece uma imersão sem igual.