
O universo de City Hunter, a icônica obra de Tsukasa Hojo que marcou gerações com seu mangá em 1985 e anime em 1987, finalmente ganha um relançamento nos consoles modernos. Originalmente lançado em 1990 para o PC Engine (conhecido no Ocidente como TurboGrafx-16) e restrito ao Japão, o game agora chega em 2026, pelas mãos da Red Art Games e Clouded Leopard Entertainment, para PlayStation 5, Xbox Series, Nintendo Switch e PC. A promessa é resgatar a essência do detetive particular Ryo Saeba e sua parceira Kaori Makimura, mas a grande questão é: essa viagem no tempo consegue se sustentar no cenário atual dos videogames?
Caçando Criminosos em Shinjuku…
A história de City Hunter coloca os jogadores na pele de Ryo Saeba, o carismático “sweeper” de Shinjuku, uma figura que transita entre detetive particular, mercenário e justiceiro urbano. Ao lado de Kaori Makimura, Ryo embarca em uma série de missões para desmantelar organizações criminosas e corporações corruptas. A narrativa se desenrola através de três missões principais, que envolvem desde laboratórios de armas biológicas até navios de cruzeiro usados para tráfico, culminando em uma quarta missão final. Embora a trama seja funcional e não exija conhecimento prévio da obra original, ela não se aprofunda em grandes reviravoltas, servindo mais como um pano de fundo para a ação. O humor característico da série, com o lado “sukebe” (pervertido) de Ryo, é sutilmente incorporado, inclusive como uma mecânica de recuperação de vida ao encontrar certas personagens femininas, o que certamente arranca um sorriso dos fãs.
Simplicidade que Cansa…

No coração de City Hunter está um side-scroller de ação 2D que remete diretamente aos clássicos dos anos 90. Ryo avança por corredores, eliminando inimigos com sua pistola e explorando portas que podem levar a NPCs, itens ou mais corredores. Os controles são responsivos e a ação é direta, o que é um ponto positivo para quem busca uma experiência arcade sem complicações. No entanto, a simplicidade se torna um dos maiores calcanhares de Aquiles do jogo. A exploração é confusa devido à ausência de um mapa e à repetição visual das portas, transformando cada fase em um labirinto pouco intuitivo. A progressão muitas vezes depende de tentativa e erro, o que pode ser frustrante.
O combate, embora funcional, carece de profundidade. Não há sistemas complexos de upgrades ou mecânicas que evoluam significativamente. A variedade de inimigos existe, com mafiosos, atiradores e bombardeiros, mas a repetição da estrutura das fases dilui rapidamente o impacto dessa diversidade. Um ponto particularmente problemático é o respawn mal planejado dos inimigos, que frequentemente surgem de forma inesperada, causando dano inevitável e gerando mais frustração do que desafio. A ausência de mira vertical também é um incômodo, especialmente em confrontos em escadas. A campanha é notavelmente curta, podendo ser concluída em uma ou duas horas, o que contribui para a sensação de que o gameplay se esgota rapidamente.
Um Retrato Fiel, mas Monótono…

A ambientação de City Hunter é fiel ao material original, transportando o jogador para as ruas urbanas de Shinjuku, com seus prédios, laboratórios e até um navio de cruzeiro. O visual em pixel art é um aceno nostálgico ao anime dos anos 80 e 90, com cores vibrantes que capturam o estilo da época. Contudo, essa fidelidade visual vem acompanhada de uma certa monotonia nos cenários. A repetição de elementos e a falta de diferenciação clara entre as áreas contribuem para a sensação de que os ambientes são genéricos e pouco memoráveis. A exploração, já prejudicada pela falta de um mapa, é ainda mais dificultada pela semelhança visual das portas e corredores.
Desafio Limitado…

Os inimigos em City Hunter apresentam uma variedade razoável em termos de tipos, mas suas estratégias são bastante previsíveis. A maioria se limita a padrões de movimento e ataque simples, o que os torna fáceis de serem despachados com tiros. As batalhas contra os chefes seguem a mesma linha: são pouco exigentes e geralmente se resumem a identificar um padrão de movimento básico e atirar repetidamente. Não há a necessidade de estratégias complexas ou de exploração de fraquezas, o que pode decepcionar jogadores que buscam um desafio maior. Em alguns casos, os chefes simplesmente pulam de um lado para o outro, disparando, sem oferecer qualquer ameaça real.
O Charme do Retrô e uma Sonoplastia Marcante…

Visualmente, City Hunter abraça sua origem com gráficos em pixel art que preservam o estilo do PC Engine. O relançamento oferece opções de filtros CRT, scanlines e diferentes proporções de tela (4:3 ou Pixel Perfect), permitindo aos jogadores personalizar a experiência visual e mergulhar ainda mais na nostalgia. Embora não seja um primor técnico para os padrões atuais, o estilo artístico é competente e cumpre seu papel de homenagear a obra original.No quesito sonoro, o jogo brilha intensamente. A trilha sonora é boa, com melodias viciantes que complementam a ação e a atmosfera do jogo. Um dos grandes destaques é a inclusão da icônica música de encerramento do anime, “Get Wild” da TM Network, disponível no jukebox do jogo. Embora a versão presente seja uma edição mais curta, a presença dessa faixa clássica é um deleite para os fãs e um testemunho da atenção aos detalhes no fanservice.
As Novidades do Relançamento…

O relançamento de City Hunter não se limita a uma simples portabilidade. Ele introduz melhorias significativas que visam modernizar a experiência sem descaracterizar o original. Além do “Modo Original”, que replica fielmente a versão de 1990, há o “Modo Enhanced”, que corrige bugs, aprimora a responsividade dos controles e melhora a detecção de colisão. Para os mais audaciosos, o “Modo Hard” oferece um desafio elevado, com inimigos mais agressivos, reposicionamento de itens e chefes reformulados, chegando a ser comparado a um “Dark Souls de 8 bits” por sua dificuldade. Recursos de qualidade de vida, como save states (salvar a qualquer momento) e a função rewind (voltar alguns segundos no tempo), são adições bem-vindas que suavizam a frustração causada pelo design original. A localização para diversos idiomas (inglês, francês, espanhol, italiano e alemão) é outro ponto positivo, embora a ausência do português possa ser um obstáculo para parte do público brasileiro. Extras como uma galeria de imagens promocionais, um jukebox completo e acesso a scans originais do manual do jogo reforçam o caráter histórico e o valor para os colecionadores.
Resumindo…

City Hunter é um relançamento que cumpre a promessa de trazer um clássico obscuro para uma nova geração de jogadores, ou para aqueles que desejam reviver uma parte da história dos games. Ele acerta em sua fidelidade ao material original, na trilha sonora cativante e nas melhorias de qualidade de vida que tornam a experiência mais acessível. No entanto, o jogo esbarra nas limitações de seu design original, com um gameplay repetitivo, exploração confusa e um nível de desafio que, fora do “Modo Hard”, é bastante limitado. A campanha curta e o preço, considerado alto são fatores que pesam na balança. Para os fãs da franquia City Hunter, este relançamento é um item de colecionador e uma oportunidade única de experimentar o único jogo oficial da série. Para os novatos, pode ser uma porta de entrada interessante, desde que as expectativas estejam alinhadas com um título que, apesar das modernizações, ainda carrega o DNA de um jogo de 1990. É um jogo que tem seu charme inegável, mas que não consegue transcender completamente as barreiras do tempo.
Review - City Hunter
Fidelidade ao espírito e visual da obra original de City Hunter - 7.5
Trilha sonora excelente e cativante, com a inclusão de - 7.5
Modos - 7
Design de fases repetitivo e exploração confusa, sem mapa. - 6.5
Ausência de localização para o português. - 6
Respawn de inimigos mal planejado, gerando frustração. - 5
6.6
Bom!
Para os fãs da franquia City Hunter, este relançamento é um item de colecionador e uma oportunidade única de experimentar o único jogo oficial da série. Para os novatos, pode ser uma porta de entrada interessante, desde que as expectativas estejam alinhadas com um título que, apesar das modernizações, ainda carrega o DNA de um jogo de 1990.

