Review – NBA THE RUN

O Basquete Arcade Voltou para Quebrar Tudo (e a Cara dos Adversários)
Por anos, os fãs de basquete nos videogames se viram divididos entre o realismo clínico do NBA 2K e a saudade de um tempo em que o esporte era sinônimo de exagero, enterradas que desafiavam a física e diversão pura. Essa sensação nostálgica, que muitos associavam ao saudoso NBA Street, uma série que reinou absoluta nos consoles GameCube e PSP durante os anos 2000, parecia ter se perdido no tempo. Contudo, a Play by Play Studios, um estúdio independente formado por veteranos que trabalharam na Electronic Arts nos tempos áureos do basquete arcade, decidiu trazer essa chama de volta com NBA THE RUN. Após diversas horas em quadra, é hora de analisar se este título consegue resgatar a essência do streetball e se cumpre a promessa de ser um sucessor espiritual dos clássicos do gênero.
Lançado em 9 de junho de 2026 para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC via Steam, o jogo traz suporte completo de cross-play entre todas as plataformas e uma licença oficial da NBA, resultado de uma parceria com a NBPA (Associação Nacional de Jogadores da NBA). A proposta é clara: esqueça a competição com o realismo do NBA 2K, porque o objetivo aqui é outro, e ele é alcançado com maestria.
Um Sucessor Espiritual que Ninguém Pediu (Mas Todos Queriam)
A trajetória de NBA THE RUN começa em 2024, quando a Play by Play Studios anunciou o projeto sob o nome provisório The Run: Got Next. O estúdio, composto por ex-desenvolvedores da EA que participaram do desenvolvimento da série NBA Street nos anos 2000, prometeu trazer de volta a fórmula que encantou gerações: partidas de 3 contra 3, enterradas absurdas e um clima de competição descompromissada. A beta aberta, realizada em 30 de maio de 2026, permitiu que os jogadores testassem o jogo pela primeira vez nos consoles, e o feedback foi extremamente positivo em relação à jogabilidade e ao visual estilizado. O que torna NBA THE RUN especial é justamente o contexto em que ele chega. O mundo dos games de esporte viveu anos em que a simulação dominou o mercado, com títulos cada vez mais focados em estatísticas, licenças e realismo gráfico. Nesse cenário, um jogo de basquete arcade parecia uma aposta arriscada e é exatamente isso que faz dele algo tão refrescante. Não se trata apenas de um jogo; trata-se de uma declaração de que a diversão pura ainda tem lugar no mercado atual.
Simples de Pegar, Difícil de Largar…

O coração de NBA THE RUN é, sem dúvida, sua jogabilidade. O jogo funciona no esquema 3 contra 3, com partidas que raramente ultrapassam os 10 minutos. A proposta é tão simples quanto viciante: partidas rápidas, muita criatividade e aquele espírito de basquete de rua onde cada posse de bola pode se transformar em uma jogada absurda. Os controles são deliberadamente mínimos. No ataque, o jogador dispõe de botões para arremesso, passe e drible. O botão de arremesso serve também para bandejas e enterradas, o que determina o movimento é a distância da cesta. Na defesa, é possível bloquear arremessos, tentar empurrar adversários e até mergulhar no chão para recuperar bolas soltas. Essa simplicidade aparente esconde, no entanto, uma profundidade surpreendente. O domínio de técnicas como ankle breakers, crossovers e manobras avançadas como o Shammgod é recompensado com jogadas de destaque que visam impressionar e humilhar o adversário.
O jogo te convida a experimentar, a tentar algo novo a cada posse de bola, e isso é um baita diferencial. O sistema de regras aleatórias é uma das ideias mais geniais do jogo. Antes de cada partida, uma roleta decide tanto a quadra quanto as regras de pontuação. Em algumas partidas, arremessos de três pontos valem dois pontos e o resto vale um (o modo Triple Threat). Em outras, enterradas valem três pontos e o resto vale apenas um, o que pode transformar completamente a estratégia de um time que montou sua escalação baseada em arremessadores de longa distância. Há ainda modos onde o primeiro a atingir 7 pontos vence, independentemente do tipo de cesta. Essa dinâmica obriga os jogadores a variar suas estratégias e a montar equipes mais equilibradas, em vez de depender de um único estilo de jogo.

O sistema defensivo merece destaque especial. Diferente de muitos arcades que focam exclusivamente no ataque, NBA THE RUN exige precisão e leitura para roubar a bola. O timing é crucial: se você errar a tentativa de roubada, seu jogador fica vulnerável, abrindo espaço para o adversário explorar. Os tocos são extremamente satisfatórios e recompensam a habilidade pura, tornando a defesa tão divertida quanto o ataque. A promessa dos desenvolvedores de tornar a defesa tão envolvente quanto o ataque foi cumprida. A presença de um sistema de habilidades especiais, ativadas por uma barra de energia que se enche com ações específicas, adiciona mais uma camada de estratégia. Quando ativadas, essas habilidades permitem enterradas quase garantidas e arremessos de alta precisão, criando momentos de adrenalina pura que são a essência do basquete arcade.
Um Elenco de Peso…

O jogo conta com uma licença oficial da NBA, trazendo um elenco robusto de mais de 30 estrelas atuais da liga, distribuídas entre quase todos os times da temporada 2025/26. Os únicos conjuntos que não possuem representantes diretos são Atlanta Hawks, Brooklyn Nets e Sacramento Kings, uma lacuna que, honestamente, faz falta, já que nomes como Domanta Sabonis ou Trae Young seriam adições naturais.
O elenco principal inclui uma verdadeira constelação de talentos:
| Jogador | Time |
| LeBron James | Los Angeles Lakers |
| Stephen Curry | Golden State Warriors |
| Giannis Antetokounmpo | Milwaukee Bucks |
| Kevin Durant | Houston Rockets |
| Nikola Jokic | Denver Nuggets |
| Luka Doncic | Los Angeles Lakers |
| Victor Wembanyama | San Antonio Spurs |
| Jayson Tatum | Boston Celtics |
| Joel Embiid | Philadelphia 76ers |
| Anthony Edwards | Minnesota Timberwolves |
| Ja Morant | Memphis Grizzlies |
| Damian Lillard | Portland Trail Blazers |
| Devin Booker | Phoenix Suns |
| Anthony Davis | Washington Wizards |
| Trae Young | Washington Wizards |
Além das estrelas da liga, o jogo também traz cinco lendas do streetball, incluindo Destiny “DJ” Jackson, que trazem uma camada extra de personalidade ao elenco. E não para por aí: existem versões alternativas desbloqueáveis de alguns jogadores, como Luka Doncic com uniforme do Dallas Mavericks, LeBron James com a camisa do Cleveland Cavaliers e Kevin Durant com a mítica camisa do Seattle SuperSonics, uma homenagem direta ao passado da liga. O que diferencia NBA THE RUN dos demais jogos de basquete é que cada atleta possui uma identidade própria, não apenas em atributos numéricos, mas em animações. O arremesso de Stephen Curry é reconhecível de longe, assim como o lançamento não ortodoxo de LaMelo Ball ou o estilo suave e calculado de Devin Booker. Essa atenção aos detalhes faz com que trocar de personagem entre partidas seja uma experiência genuinamente diferente.
Gráficos e Estilo Visual: Personalidade Acima de Tudo

A maior e melhor decisão estética de NBA THE RUN foi fugir do fotorrealismo. Em vez de tentar replicar a realidade com precisão milimétrica, o jogo aposta em um estilo estilizado, quase como uma animação feita à mão, com cores fortes e uma identidade visual cartunesca. Essa abordagem não é apenas uma escolha artística, é uma declaração de intenções. A direção de arte é vibrante, com jogadores que possuem movimentos exagerados e animações que valorizam cada jogada de impacto. As enterradas têm impacto visual notável, com animações fluidas e uma sensação de recompensa que faz valer a pena cada drible para chegar até a cesta.
Os dribles, por sua vez, não são apenas movimentos para escapar do marcador; são ferramentas para criar momentos de destaque, para humilhar o adversário e para incentivar a criatividade. O visual estilizado também tem uma vantagem prática importante: ele não depende do fotorrealismo, o que significa que o jogo tem tudo para envelhecer muito melhor que os simuladores esportivos atuais. Enquanto títulos como o NBA 2K precisam de atualizações constantes para manter a qualidade gráfica, NBA THE RUN não se preocupa com isso, sua arte é atemporal.
Trilha Sonora: O Hip Hop como Coluna Vertebral

A trilha sonora e a ambientação sonora de NBA THE RUN são, sem dúvida, um dos pilares da experiência. A presença constante de DJ Bobbito Garcia como narrador e comentarista oficial traz um conforto nostálgico instantâneo para quem jogou os antigos NBA Street Vol. 2 e V3. Bobbito Garcia, também conhecido como Kool Bob Love, é uma lenda do streetball e do hip hop nova-iorquino, e sua voz é a ponte perfeita entre o passado e o presente do basquete arcade nos videogames.A trilha sonora é recheada de clássicos do hip hop que complementam perfeitamente a atmosfera de competição urbana.
Faixas como “Uptown Anthem” do Naughty by Nature, “Samurai” do Lupe Fiasco, “Ya” do Redman e “Rump Shaker” do Wrecks n Effect criam a trilha sonora perfeita para a disputa entre amigos. Cada partida parece um episódio de um filme sobre basquete de rua, com as batidas do hip hop ditando o ritmo das jogadas. Os efeitos sonoros também cumprem seu papel com competência, reforçando a sensação de impacto nas jogadas. O som da bola batendo no aro, o barulho da rede e as reações da plateia virtual criam uma camada de imersão que, combinada com a trilha sonora, transforma cada partida em um evento.
Sete Quadras que Contam Histórias…

Se existe algo que NBA THE RUN faz excepcionalmente bem é a ambientação das quadras. O jogo conta com sete quadras diferentes, espalhadas por diferentes partes do mundo, cada uma com sua própria identidade visual e cultural. Essas não são apenas cenários genéricos; são representações autênticas de como o basquete de rua é vivido em diferentes culturas. O Rucker Park, em Nova York, é talvez o mais icônico. Situado no coração do Harlem, o Rucker Park é historicamente o palco de lendas do streetball e de partidas que ficaram marcadas na cultura popular. A reprodução no jogo captura perfeitamente a atmosfera do local, com espectadores, grafites e aquela energia única que só Nova York consegue proporcionar.
Venice Beach, em Los Angeles, é outro destaque. As quadras ao ar livre de Venice Beach são sinônimo de basquete californiano, e o jogo captura tanto o cenário litorâneo quanto a atitude descontraída dos jogadores. O The Tenement, inspirado nas quadras de Manila, nas Filipinas, é uma escolha surpreendente e bem-vinda, mostrando que o basquete de rua é um fenômeno global, não apenas americano. Outras quadras incluem cenários em Paris, Tóquio e o Dongdan Sports Complex, em Beijing. Cada uma possui personalidade suficiente para fazer as partidas parecerem diferentes, mesmo mantendo as mesmas regras. A diversidade visual ajuda a manter o interesse mesmo quando a estrutura de jogo começa a se tornar repetitiva, e mostra o cuidado e a atenção que a Play by Play Studios dedicou à construção dessas quadras, tratando cada uma como a celebração do basquete que ela é.
Resumindo…

NBA THE RUN não veio para substituir o NBA 2K, e nem deveria. Ele veio para nos lembrar que videogames esportivos podem ser, antes de tudo, sobre exagero, criatividade e diversão pura. Ele resgata aquela sensação que muitos de nós sentíamos falta: a vontade de fazer uma jogada impossível só porque é divertido. A jogabilidade é viciante, o visual estilizado é cativante e a trilha sonora é impecável. A presença de Bobbito Garcia, as quadras ao redor do mundo e o elenco recheado de estrelas mostram um respeito profundo pela cultura do basquete de rua. O rollback netcode garante partidas online sem lag, e o sistema de regras aleatórias mantém cada partida imprevisível.
Review - NBA THE RUN
Jogabilidade acessível para iniciantes, mas com profundidade competitiva para jogadores dedicados. - 8.5
Visual estilizado e vibrante, com cores fortes e animações que valorizam cada jogada de impacto. - 8.5
Hip hop clássico com a narração de Bobbito Garcia cria a atmosfera perfeita para o streetball. - 8
Ausência de modo carreira, campanha individual ou desafios offline robustos. - 7
Apenas três modos principais no lançamento, com poucas variações de estrutura. - 6.5
O jogo exige internet constante, mesmo para modos que poderiam ser locais. - 5
7.3
Bom!
Apesar da escassez de conteúdo para a experiência solo e da falta de uma profundidade maior a longo prazo, NBA THE RUN entrega partidas rápidas, controles viciantes e uma energia que poucos jogos de esporte conseguem alcançar.

