Review – Disciples: Domination

No vasto panteão dos RPGs de estratégia de fantasia sombria, poucas séries se mantiveram tão fiéis às suas raízes quanto Disciples. Desde o lançamento de Disciples: Sacred Lands em 1999, Nevendaar tem sido um mundo à beira de um apocalipse interminável. Disciples: Domination, o quinto título principal da série, é desenvolvido pela Artefacts Studio e publicado pela Kalypso Media. Este RPG tático por turnos é uma evolução confiante da franquia, que aprimora as mecânicas e o tom que definiram a identidade da saga ao longo de mais de duas décadas, sem reinventar completamente a fórmula. O jogo se posiciona como um “soft reboot” temático, construindo sobre os eventos de Disciples: Liberation e estabelecendo as bases para uma nova trilogia.
História…
Disciples: Domination se passa quinze anos após os eventos de Disciples: Liberation, com a Rainha Avyanna novamente no centro da narrativa. Avyanna, que desafiou e derrotou os antigos deuses, agora governa Nevendaar a partir da lendária cidade de Yllian. No entanto, um novo mal ameaça suas vitórias passadas, e ela se vê lutando contra o desiludimento com sua própria liderança.A trama se desenrola com Avyanna investigando uma série de assassinatos em Cragwell, uma antiga fortaleza anã, onde ela encontra e recruta Helmer, seu primeiro companheiro. A história explora alianças, suspeitas e a fragilidade política do reino, enquanto Avyanna tenta salvar o mundo da mana corrompida que está lentamente matando Nevendaar.
O jogo assume alguma familiaridade com os eventos de Liberation, o que pode fazer com que novos jogadores percam um pouco do impacto emocional de certas conversas e do pano de fundo dos personagens. No entanto, as cinemáticas e a articulação dos pontos-chave da história são bem feitas para os recém-chegados, garantindo que a experiência não seja totalmente perdida. As facções clássicas de Nevendaar, como Anões, Elfos, Mortos-Vivos, Demônios e Imperiais, retornam, cada uma com suas próprias motivações e estéticas bem definidas.
Jogabilidade…

A base jogável de Disciples: Domination assenta na exploração em tempo real de mapas, pontuados por exércitos inimigos, recursos e fragmentos de história. O combate tático por turnos é um dos pilares da série, ocorrendo em mapas hexagonais pequenos, mas densos em possibilidades. A impossibilidade de atravessar unidades e a presença de efeitos ambientais transformam cada confronto em um quebra-cabeça tático, onde o posicionamento e o controle do espaço são cruciais. As unidades operam com diferentes tipos de pontos de ação para movimento, ataques e habilidades, e a gestão desses pontos é fundamental para o sucesso.
Recrutamento de Unidades…

O sistema de recrutamento de unidades é um aspecto central da jogabilidade. A Rainha Avyanna possui um atributo de Liderança que permite recrutar unidades de diferentes facções, cada uma com funções bem definidas. Elfos são especializados em ataques à distância e furtividade, enquanto as tropas Imperiais oferecem um equilíbrio entre defesa e cura. A gestão do grupo se torna o verdadeiro núcleo estratégico, exigindo que o jogador pense em sinergias, posicionamento e resposta a efeitos de estado. Além das unidades padrão, é possível recrutar companheiros e heróis únicos, que não consomem pontos de liderança e são revividos após a batalha, ao contrário das unidades mercenárias que morrem permanentemente. O jogo permite uma composição de grupo de até 10 unidades, incluindo 3 unidades de retaguarda que atuam como suporte automático.
Magias e Classes de Personagens…

Avyanna pode assumir uma de quatro classes distintas: Warmaster, Primordial Ruler, Holy Regent ou Witch Queen. Cada classe possui uma árvore de habilidades própria e estilos de jogo diferenciados. O Warmaster, por exemplo, foca em resistência e combate direto, enquanto a Witch Queen aposta em magia ofensiva e efeitos de estado. A escolha da classe é feita no início do jogo, mas pode ser ajustada posteriormente através de um sistema de respec baseado em ouro. A progressão de habilidades pode parecer lenta, com apenas um ponto de habilidade por nível e melhorias que oferecem bônus percentuais modestos. No entanto, a escolha da classe e a composição do grupo compensam essa limitação, permitindo uma variedade tática significativa. As magias consomem mana e escalam com as melhorias do castelo de Yllian, que também expande a capacidade de liderança para recrutar unidades de nível superior. Cada classe abre domínios de feitiços distintos, embora o domínio Crepúsculo permaneça universalmente acessível.
Sistema de Queixas (Grievance System)…

Uma das novas mecânicas introduzidas em Disciples: Domination é o Sistema de Queixas. No trono de Yllian, Avyanna pode ouvir as queixas de seu povo e das diferentes facções, que surgem durante a exploração ou estão ligadas à narrativa principal. As decisões tomadas aqui afetam a história e o relacionamento com as facções, concedendo bônus em batalha ao aumentar a reputação com elas. Este sistema adiciona uma camada de macro-estratégia, onde cada escolha tem peso e impacto no reino frágil de Nevendaar, lembrando os momentos de conselho de jogos como Pathfinder: Kingmaker. Embora a variedade das queixas possa se tornar repetitiva após um tempo, a mecânica em si é um ponto forte do jogo, e o equilíbrio entre as facções é crucial.
Gerenciamento de Recursos…

O gerenciamento de recursos é vital em Disciples: Domination. Existem três maneiras principais de obter recursos: encontrá-los espalhados pelo mundo, desmontar itens indesejados (já que não há como vendê-los por ouro) e capturar edifícios que produzem recursos específicos. Esses recursos são essenciais para aprimorar edifícios em Yllian, que por sua vez desbloqueiam unidades e itens de nível superior. A progressão do castelo está ligada à narrativa principal, criando um gargalo estratégico que força o jogador a priorizar seus investimentos. Embora o sistema seja bem implementado, pode haver um excesso de recursos no final do jogo para jogadores que completam todas as missões secundárias, o que pode diminuir a relevância do sistema.
Ambientação…

Os ambientes em Disciples: Domination variam de terras agrícolas medievais em ruínas a paisagens montanhosas infernais. Detalhes finos, como estruturas desgastadas e efeitos mágicos persistentes, ajudam a imergir o jogador em cada local. A direção de arte, embora familiar para os fãs da série, consegue criar um mundo sombrio e detalhado. A exploração em tempo real no mapa-múndi isométrico é fluida, com uma interface limpa que facilita a identificação de tesouros escondidos, recursos e fragmentos de história.
A movimentação pelo mapa é facilitada por pontos de viagem rápida, embora a câmera, que pode ser ampliada e reduzida, não possa ser girada, o que pode tornar a visualização um pouco restritiva em alguns momentos. O mundo se abre com nós de recursos capturáveis, materiais coletáveis e interações ambientais que podem depender do companheiro que Avyanna leva consigo. A exploração do mapa é uma das três atividades principais do jogo, juntamente com o combate e a diplomacia.
Gráficos e Trilha Sonora…

Disciples: Domination apresenta uma estética de fantasia sombria “brilhante”, com designs de personagens e ambientes nítidos e detalhados. As animações de combate e os efeitos visuais são particularmente elogiados, contribuindo para uma experiência visualmente rica. O mapa do mundo superior também é bem elaborado, com detalhes que se destacam. Visualmente, o jogo apresenta ambientes detalhados e coerentes com o tom sombrio da série, desde campos agrícolas em ruínas até paisagens montanhosas devastadas por magia.
No que diz respeito à trilha sonora e à dublagem, o jogo tem um desempenho misto. A dublagem é, em alguns momentos, inconsistente, com a voz da própria Avyanna sendo um ponto de crítica por soar “leve” demais para uma monarca experiente. A trilha sonora, embora presente, não é particularmente memorável, mas o design de som geral é considerado rico e complementa os visuais. Os efeitos sonoros em combate são claros e funcionais, ajudando a identificar habilidades e impactos, mas não adicionam grande peso emocional às batalhas.
Dificuldade…

A curva de dificuldade em Disciples: Domination pode ser exigente, especialmente porque o nivelamento primariamente aumenta as estatísticas básicas e não desbloqueia novas habilidades na maioria dos casos. Manter o ritmo com a dificuldade exige gerenciamento cuidadoso do elenco de unidades e planejamento estratégico. O jogo oferece um “Modo História” para aqueles que buscam uma experiência mais acessível, além de várias opções de personalização para ajustar a dificuldade. Os combates, embora taticamente profundos, podem se tornar repetitivos para alguns jogadores.
A necessidade de “grindar” encontros menores para fortalecer o exército antes de enfrentar objetivos maiores é uma constante, e a implementação do level gating pode, por vezes, diminuir o impacto de elementos da história. O jogo não permite salvar no meio de uma batalha, o que pode ser um fator a considerar. Além disso, houve relatos de um aumento súbito na dificuldade em certas partes do jogo, exigindo que os jogadores voltassem para missões anteriores para nivelar seus exércitos. No entanto, para os fãs de estratégia que apreciam o ciclo constante de planejamento, otimização e refinamento de suas estratégias de unidade, a dificuldade é um ponto positivo.
Resumindo…

Disciples: Domination é uma evolução confiante para a franquia, mantendo-se fiel às suas raízes de RPG tático de fantasia sombria. Embora não reinvente completamente a fórmula, o jogo aprimora as mecânicas existentes e aprofunda a narrativa de Avyanna. O sistema de combate tático por turnos, o gerenciamento de unidades e o inovador Sistema de Queixas contribuem para uma experiência estratégica rica e envolvente. Disciples: Domination é um título que agradará tanto aos fãs de longa data da série quanto aos novatos que buscam um RPG tático desafiador e com uma rica ambientação de fantasia sombria. Apesar de algumas falhas na dublagem e na progressão de habilidades, a profundidade estratégica e a narrativa envolvente fazem dele uma adição valiosa ao gênero.
Review - Disciples: Domination
Combate tático por turnos envolvente e desafiador - 9
Gráficos e direção de arte atraentes, com ambientes detalhados - 8
Sistemas de jogabilidade bem integrados - 8
Opções de personalização de dificuldade - 8
Dublagem inconsistente, especialmente a da personagem principal - 7.5
Aumento súbito de dificuldade em certas partes do jogo - 7.5
8
Muito Bom!
Disciples: Domination é uma evolução confiante para a franquia, mantendo-se fiel às suas raízes de RPG tático de fantasia sombria. Embora não reinvente completamente a fórmula, o jogo aprimora as mecânicas existentes e aprofunda a narrativa de Avyanna.

