A franquia que um dia conhecemos como Yakuza e que hoje se consolida globalmente sob o nome de Like a Dragon (Ryu Ga Gotoku no Japão) possui uma história rica e complexa, mas seu ponto de virada definitivo no Ocidente tem um nome: Yakuza 0. Lançado originalmente em 2015, este prólogo se tornou a porta de entrada para milhões de jogadores, estabelecendo o tom dramático, a ação frenética e o humor excêntrico que definem a série. Agora, a SEGA traz de volta essa obra-prima com o Yakuza 0 Director’s Cut, uma versão aprimorada que chega ao Xbox Series X|S prometendo ser a edição definitiva de um clássico. A grande questão para os fãs e novatos é: o que essa “Director’s Cut” realmente adiciona ao jogo que já era considerado perfeito? Recebemos a versão de Xbox para análise e mergulhamos novamente nas ruas iluminadas por neon de Kamurocho e Sotenbori para descobrir se o brilho dos anos 80 ainda é suficiente para justificar o retorno.
O Japão da Bolha Econômica…
A história de Yakuza 0 é, sem dúvida, seu maior trunfo. Ambientado em 1988, no auge da bolha econômica japonesa, o jogo nos transporta para um período de euforia, ostentação e especulação imobiliária desenfreada. Este cenário histórico não é apenas um pano de fundo; ele é o motor do conflito central. A história se desenrola em um sistema de dupla narrativa, alternando entre os destinos de dois protagonistas icônicos. Em Kamurocho (a versão fictícia de Shinjuku, Tóquio), acompanhamos um jovem Kazuma Kiryu, então com 20 anos, um membro de baixo escalão da Yakuza que é incriminado por um assassinato ligado a um pequeno, mas crucial, pedaço de terra conhecido como o “Lote Vazio” (Empty Lot). Expulso temporariamente de seu clã, Kiryu precisa provar sua inocência e desvendar uma conspiração que ameaça desestabilizar toda a organização Tojo.

Paralelamente, em Sotenbori (Osaka), conhecemos Goro Majima, o futuro “Cão Louco de Shimano”, que aqui é um gerente de cabaré elegante e contido, forçado a viver sob vigilância após cair em desgraça com a Yakuza. Sua chance de redenção surge com a missão de assassinar uma mulher cega, Makoto Makimura. No entanto, a hesitação de Majima em cumprir a ordem o coloca em um caminho de proteção e conflito, revelando a origem de sua personalidade caótica e inesquecível. A forma como a trama entrelaça o destino de Kiryu e Majima através da disputa pelo Lote Vazio e a figura de Makoto é magistral. É uma história de origem poderosa que humaniza os personagens e estabelece as bases para toda a saga Like a Dragon.
Os Pilares da Lenda…

O coração de Yakuza 0 reside em seus protagonistas e no elenco de apoio memorável. Kazuma Kiryu é apresentado em sua juventude, antes de se tornar o lendário Dragão de Dojima. Sua jornada é marcada por um forte senso de justiça e lealdade, mesmo quando traído por aqueles em quem confia. Sua seriedade contrasta perfeitamente com a jornada de Goro Majima, que está em um ponto de inflexão em sua vida. Vemos um Majima mais controlado e melancólico, cuja transformação no icônico Cão Louco é um dos arcos mais fascinantes e bem escritos da história dos videogames. O elenco de apoio, incluindo os vilões complexos e os personagens das sub-histórias, é igualmente cativante, garantindo que a experiência narrativa seja rica e variada.
Ação Clássica e Viciante…

O combate de Yakuza 0 representa o ápice da jogabilidade beat ‘em up clássica da franquia, antes da transição para o sistema Dragon Engine. O jogo brilha ao oferecer múltiplos estilos de luta distintos para Kiryu e Majima, que podem ser trocados em tempo real durante as batalhas. Kazuma Kiryu domina três estilos principais: o Brawler, um estilo equilibrado e poderoso; o Rush, focado em velocidade e esquivas rápidas; e o Beast, que permite ao jogador usar objetos do cenário como armas destrutivas. Já Goro Majima possui os estilos Thug, um estilo de luta de rua mais tradicional; o Slugger, onde ele empunha um taco de beisebol com maestria; e o excêntrico Breaker, um estilo de dança break que o torna rápido e imprevisível.

Além disso, ambos os personagens podem desbloquear seus estilos lendários, o Dragon of Dojima e o Mad Dog of Shimano, respectivamente, que representam o auge de suas habilidades. A progressão é baseada em dinheiro, o que se encaixa perfeitamente no tema dos anos 80. O dinheiro é usado para desbloquear novas habilidades e estilos, tornando cada luta uma oportunidade de investimento. Além do combate principal, a quantidade de conteúdo secundário é avassaladora. Gerenciar o negócio imobiliário de Kiryu e o Cabaret Club de Majima são minigames profundos e viciantes que podem consumir dezenas de horas. Somado a isso, há dezenas de sub-histórias hilárias e emocionantes, karaokê, fliperamas (com jogos clássicos da SEGA), boliche e muito mais. O jogo é um verdadeiro parque de diversões japonês.
Director’s Cut: O Que Há de Novo?

A principal atração de Yakuza 0 Director’s Cut está nas melhorias técnicas e de acessibilidade que o consolidam como a versão definitiva para novos jogadores, especialmente no Xbox Series X|S. Em termos de performance, o jogo roda em 4K nativo a 60 quadros por segundo, incluindo as cutscenes, o que confere uma fluidez impressionante à experiência. Esse ganho técnico dá nova vida aos distritos de Kamurocho e Sotenbori, que pulsam com luzes de neon, densidade visual e uma atmosfera vibrante que remete diretamente ao Japão dos anos 80. A trilha sonora continua sendo um espetáculo à parte, combinando rock, batidas eletrônicas e J-Pop de forma precisa, capturando com autenticidade o espírito da década. No conteúdo, as novidades ampliam significativamente a acessibilidade do jogo. Pela primeira vez, todo o texto está localizado em português do Brasil, uma adição essencial que torna a narrativa densa e o humor característico da série mais acessíveis a um público maior, com uma tradução elogiada pela qualidade e adaptação cultural.

O jogo também passa a oferecer dublagem em inglês, de alto nível, que surge como uma alternativa interessante para quem prefere acompanhar a história sem depender de legendas. Além disso, foram incluídos cerca de 20 a 25 minutos de novas cutscenes que, embora não alterem o enredo principal e sejam vistas mais como cenas deletadas, funcionam como material extra e curiosidades narrativas para os fãs mais atentos aos personagens e situações do universo de Yakuza. Por fim, a adição mais ousada é o modo online Red Light Raid, marcando a primeira vez que a franquia recebe uma experiência multiplayer. Trata-se de um beat ’em up cooperativo focado em PvE, no qual os jogadores podem escolher diversos personagens da campanha para enfrentar hordas de inimigos. Apesar da proposta interessante, a recepção tem sido mista, já que o modo pode se tornar repetitivo e, devido à baixa base de jogadores ativos, frequentemente acaba funcionando como uma experiência solitária acompanhada por NPCs, limitando seu potencial a longo prazo.
Resumindo…

Yakuza 0 Director’s Cut é, em sua essência, o mesmo jogo espetacular de 2015, mas com a melhor performance técnica e acessibilidade que a nova geração pode oferecer. A história de origem de Kiryu e Majima é uma das melhores já escritas nos videogames, repleta de drama, reviravoltas e momentos de pura comédia. Para os novatos, esta é a melhor e mais completa forma de começar a franquia. A performance em 4K/60 FPS no Xbox Series X|S e a tradução em PT-BR eliminam qualquer barreira de entrada. Para os veteranos, a situação é mais complexa. A SEGA optou por remover a versão original das lojas, forçando a compra da Director’s Cut. O preço cheio é alto para quem busca apenas as poucas novidades. Se você já possui o original, o upgrade só vale a pena se a dublagem em inglês ou a localização em PT-BR forem cruciais para você, já que o novo modo online é decepcionante.
Narrativa de origem impecável e emocionante. - 10
Performance em 4K/60 FPS no Xbox Series X|S - 10
Localização textual em Português do Brasil. - 9.5
Conteúdo massivo (minigames, missões secundárias). - 9.5
Personagens carismáticos e memoráveis. - 9.5
Red Light Raid é repetitivo e sem jogadores. - 8
Novas cutscenes são pouco relevantes. - 8
Versão original removida das lojas digitais - 7.5
9
Excelente!!!
Se você nunca jogou Yakuza 0, compre sem hesitar. É um dos melhores jogos de ação e aventura da última década. Se você é um fã que já o zerou, espere por uma promoção, a menos que a tradução em PT-BR seja um fator decisivo.