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Review: Mafia: The Old Country

Onde a Máfia Nasceu e a Jogabilidade Parou no Tempo

A franquia Mafia sempre teve um charme inegável. Enquanto outras séries de mundo aberto se perdiam em mapas gigantescos e listas de tarefas intermináveis, Mafia manteve o foco no que realmente importa: a história. Acompanhamos a saga do crime organizado através das décadas – dos anos 30 do original, passando pelos 40 e 50 em Mafia II, até a explosão dos anos 60 em Mafia III. Mas, para o seu mais novo capítulo, a Hangar 13 decidiu fazer algo inesperado: voltar ao início de tudo.
 
Mafia: The Old Country (disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC) não avança no tempo, ele recua para 1904, na Sicília, para nos mostrar a gênese da Cosa Nostra. A promessa é de uma experiência cinematográfica, com a ambição de ser o “Poderoso Chefão” dos videogames, agora impulsionada pela Unreal Engine 5 na atual geração de consoles. Mas será que a beleza visual e a força da narrativa conseguem sustentar um gameplay que, em muitos momentos, parece ter ficado preso no passado?

O Cinema Encontra a Sicília…

A narrativa é, sem dúvida, o ponto alto de The Old Country. Somos apresentados a Enzo Favara, um jovem minerador que, após um acidente trágico, foge da escravidão nas minas de enxofre controladas pela família Spadaro e encontra refúgio com a família rival, os Torrisi. A partir daí, acompanhamos a ascensão de Enzo no mundo do crime, começando como um simples serviçal e, gradualmente, ganhando a confiança do Don Bernardo Torrisi. O roteiro é uma ode aos clássicos filmes de máfia: temos o mentor justo, o amigo leal e impetuoso, o Don imponente, a traição inevitável e, claro, o romance proibido com a filha do chefe.
 
Embora a história seja previsível para quem é fã do gênero, a execução é primorosa. A Hangar 13 demonstra mais uma vez sua maestria em contar histórias envolventes, com diálogos intensos e reviravoltas que, mesmo esperadas, são entregues com peso dramático. A campanha é relativamente curta, com cerca de 10 a 13 horas de duração, mas cada momento é bem aproveitado, mantendo um ritmo de filme que não te deixa largar o controle.

A Força do Elenco…

Os personagens são o coração pulsante desta história. Enzo Favara é um protagonista carismático, cuja jornada de ascensão é crível e envolvente. É satisfatório acompanhar sua evolução de um mineiro oprimido a um homem de confiança do Don. Don Torrisi é um destaque à parte. Sua presença é intimidadora e a atuação de voz (especialmente na versão em inglês) transmite a autoridade silenciosa que se espera de um líder da máfiaO elenco de apoio, incluindo o amigo leal e a paixão proibida, cumpre seu papel em adicionar camadas emocionais à trama, fazendo com que o jogador se importe com o destino de cada um. A opção de jogar com o áudio em siciliano adiciona uma camada extra de autenticidade e imersão, algo que merece aplausos.
 

O calcanhar de Aquiles…

É no gameplay que Mafia: The Old Country mais tropeça. O foco quase obsessivo na narrativa acaba deixando a jogabilidade em segundo plano, resultando em mecânicas que soam datadas e pouco inspiradas. A proposta é claramente linear e guiada pela história, com o suposto mundo aberto da Sicília funcionando mais como um belíssimo pano de fundo do que como um espaço vivo e interativo. As atividades secundárias são escassas e pouco criativas, limitando-se basicamente a colecionáveis,  como os 50 santos do rosário, que concedem pequenos upgrades de habilidades. O problema é que esses itens só podem ser buscados de forma mais livre após o término da campanha, já que o jogo constantemente pune o jogador por se desviar do caminho principal das missões.

Aspectos do Gameplay

  • Tiroteios Básicos, mas funcionais: O sistema de cobertura é competente e cumpre seu papel, porém as animações são simples e a inteligência artificial dos inimigos é previsível, reduzindo o desafio e a variedade dos confrontos.

  • Combate de faca repetitivo: Os duelos são apresentados de forma cinematográfica, com mecânicas de parry e esquiva, mas rapidamente se tornam monótonos após as primeiras execuções.

  • Stealth datado: As mecânicas furtivas são simples demais, com padrões de inimigos óbvios, fazendo com que missões obrigatórias de stealth se transformem em tarefas mais cansativas do que tensas.

  • Direção prazerosa: Dirigir carros da época ou cavalgar pela Sicília transmite uma boa sensação de peso e física. Infelizmente, o jogo explora pouco esse ponto forte, com poucas missões focadas em corrida ou deslocamento.

No fim das contas, a sensação predominante é a de estar diante de um “simulador de caminhada” intercalado por cutscenes visualmente impressionantes, onde a ação surge mais como exceção do que como regra.

Um Colírio para os Olhos…

Visualmente, o jogo é um espetáculo. A Sicília do início do século XX é recriada com uma riqueza de detalhes impressionante, graças ao poder da Unreal Engine 5. A direção de arte é impecável, com texturas nítidas, iluminação que valoriza a ambientação e modelagens de personagens convincentes. É um dos jogos mais bonitos da atual geração. No entanto, essa beleza cobra seu preço.
 
O jogo sofre com instabilidade de framerate e o temido pop-in de texturas, além de telas de carregamento longas que quebram o ritmo, especialmente após uma morte. A trilha sonora orquestrada é discreta, mas eficaz em sustentar o clima cinematográfico. Como mencionado, a dublagem é excelente, mas a ausência de dublagem em português brasileiro é um ponto negativo, embora as legendas estejam presentes.

Curto e Frustrante…

A campanha principal pode ser concluída em cerca de 10 a 13 horas, um tempo adequado para uma experiência fortemente guiada pela narrativa. Para um jogo que aposta todas as suas fichas na história, essa duração é satisfatória e evita que o ritmo se torne cansativo ou excessivamente arrastado. No entanto, a escassez de atividades secundárias relevantes acaba fazendo com que a experiência termine de forma um tanto abrupta. Quando os créditos sobem, fica a sensação de que ainda havia espaço para explorar melhor o mundo e seus personagens, mas o jogo simplesmente não oferece conteúdo suficiente para prolongar esse envolvimento de maneira orgânica.

A dificuldade, por sua vez, não está propriamente nos tiroteios, que são relativamente acessíveis e previsíveis, mas sim em algumas questões técnicas que prejudicam a fluidez do gameplay. As longas telas de carregamento após a morte quebram o ritmo das missões e podem se tornar especialmente frustrantes em trechos mais exigentes. Soma-se a isso o delay perceptível nos comandos durante o combate de faca, que compromete a precisão das ações e faz com que erros pareçam mais fruto de limitações técnicas do que de falhas do jogador. Esses problemas, embora não tornem o jogo injogável, acabam testando a paciência e diminuindo o impacto de momentos que deveriam ser mais intensos e memoráveis.

Resumo: Um Filme que Você Joga

Mafia: The Old Country é uma experiência que se destaca mais pelo que conta do que pelo que oferece em termos de jogabilidade. É um jogo que funciona como um filme interativo, com uma narrativa poderosa e uma ambientação visualmente deslumbrante. Se você busca uma história de máfia envolvente, com personagens marcantes e uma produção digna de cinema, este jogo é para você. Se, por outro lado, você espera um mundo aberto cheio de atividades ou um gameplay inovador e polido, prepare-se para a decepção. 

Mafia: The Old Country é um jogo que, apesar de seus problemas técnicos e de gameplay, entrega uma das melhores narrativas do ano. É uma experiência obrigatória para os fãs da franquia e do gênero de máfia, mas que precisa ser apreciada como um bom vinho: com calma e foco na história, ignorando as pequenas imperfeições da taça.

Review: Mafia: The Old Country

Roteiro cinematográfico e envolvente - 9.5
Ambientação autêntica e direção de arte impecável - 9
Personagens marcantes e atuações de voz excelentes - 8.5
Opção de áudio em siciliano para máxima imersão - 8
Jogabilidade básica e pouco inovadora - 7.5
Combate de faca e stealth repetitivos e datados - 7.5
Instabilidade de framerate e longas telas de carregamento - 7
Poucas atividades secundárias e mundo aberto subaproveitado - 7

8

Muito Bom!

Mafia: The Old Country é um jogo que, apesar de seus problemas técnicos e de gameplay, entrega uma das melhores narrativas do ano.

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Eduardo Lino

Olá, Eu sou o Edu! Sou o criador do portal de notícias Gamer Spoiler. Apaixonado por games desde pequeno e jornalista nas horas vagas!
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