Reviews e Previews
Review – Borderlands 4
A Gearbox acerta o tom e revoluciona a fórmula looter-shooter com um mundo aberto vibrante.

A franquia Borderlands sempre foi sinônimo de caos, humor escrachado e, claro, um arsenal de armas que beira o infinito. No entanto, após o lançamento de Borderlands 3, a fórmula parecia ter atingido um platô, com críticas focadas em um humor excessivo e vilões pouco memoráveis. A Gearbox Software, ciente da necessidade de renovação, nos entrega agora Borderlands 4, um título que se apresenta não apenas como uma sequência, mas como um audacioso soft reboot.
Seis anos após os eventos de seu antecessor, a saga nos transporta para o planeta Kairos, um novo palco para a caça às Arcas . A grande promessa e a principal mudança estrutural é a transição para um mundo aberto unificado, uma revolução que visa modernizar a experiência sem trair o DNA looter-shooter que a série consagrou. A pergunta que fica é: será que essa nova era, com um tom mais maduro e um foco renovado na narrativa, consegue entregar o melhor dos dois mundos, ou o risco de mexer no que estava estabelecido se provou grande demais?
O Senhor do Tempo e o Tom Mais Sóbrio…
A primeira grande mudança que salta aos olhos em Borderlands 4 é o tratamento dado à história. Fugindo do apelo exagerado a piadas de internet e memes que marcaram o jogo anterior, o novo título adota um tom mais maduro e sério, resgatando a essência narrativa de Borderlands 2. A trama se desenrola no planeta Kairos, que está sob o domínio opressor do ditador conhecido como Senhor do Tempo (Timekeeper) . Este vilão, embora não atinja o carisma icônico de Handsome Jack, é construído como uma ameaça real e imponente, impondo uma tirania que controla a mente dos cidadãos. A missão dos novos Caça-Arcas é clara: liderar a Resistência Rubra local para libertar o povo de Kairos e, no processo, encontrar a Arca do planeta.
O roteiro, assinado por Sam Winkler, que criticava o “humor de banheiro” do antecessor, é mais contido e direto. O humor ácido e escrachado da franquia ainda está presente, mas é utilizado de forma mais pontual e certeira, servindo para aliviar a tensão e não para ditar o ritmo da narrativa. A campanha principal, que pode ser concluída em cerca de 20 a 25 horas, é impactante e bem construída, com momentos emotivos que dão peso ao universo do jogo. Apesar dos acertos, a estrutura da campanha, que divide a narrativa em três arcos principais com mini-antagonistas, acaba fragmentando a ameaça central. O Senhor do Tempo, embora funcional, se torna um vilão principal pouco memorável, reforçando a sensação de que o jogo ainda está em transição, buscando um novo grande antagonista para a franquia.
Caça-Arcas Falantes e NPCs Carismáticos…
Uma das evoluções mais notáveis em Borderlands 4 é a forma como os Caça-Arcas (Vault Hunters) são tratados. Pela primeira vez, o personagem do jogador não é um protagonista mudo. Eles aparecem em todas as cutscenes e participam ativamente da história com falas próprias e carisma. Essa integração maior da personalidade dos protagonistas (Vex, Harlowe, Rafa e Amon) é um salto imenso e ajuda a criar uma conexão mais profunda com o jogador. Os novos Caça-Arcas são divertidos e carismáticos, cada um com sua personalidade marcante, como Rafa, o exo-soldado mulherengo que alterna entre inglês e espanhol.
Eles possuem três árvores de habilidades distintas, oferecendo uma liberdade de build impressionante e incentivando a experimentação. Os personagens secundários também brilham. Veteranos da franquia, como Zane e Moxxi, retornam em papéis mais pontuais e significativos, evitando a descaracterização do passado. A dinâmica entre Zane e Levaine, por exemplo, é surpreendentemente boa. Além disso, os líderes aliados de cada sub-região de Kairos, como Rush e Calder, são bem escritos e ajudam a carregar o peso emocional da trama. Até mesmo o irritante Claptrap é considerado “suportável” e suas missões secundárias são extremamente divertida.
O Melhor Combate da Série…
O núcleo da franquia, o gunplay caótico e viciante, atinge seu ápice em Borderlands 4 . A jogabilidade é a melhor experiência de combate que a série já ofereceu, sendo extremamente satisfatória e viciante. A Gearbox não mexeu no que funciona, mas refinou e adicionou novas mecânicas que tornam o combate mais vertical e dinâmico . As grandes novidades de movimentação são:
•Gancho (Grappling Hook): Permite alcançar áreas elevadas, atravessar distâncias curtas e, o mais importante, puxar objetos explosivos do cenário para arremessar nos inimigos.
•Planador (Jetpack): Permite planar no ar, melhorando a transição e a abordagem em combate.
•Pulo Duplo e Deslize: Refinamentos que dão mais fluidez à movimentação.
O arsenal de armas continua vasto e variado. O sistema de loot foi aprimorado, com a introdução de Augments que permitem combinar características de diferentes fabricantes, criando builds de armas ainda mais insanas e poderosas. A Gearbox também fez um ajuste na economia de loot lendário, tornando a obtenção de equipamentos raros mais valorizada. Outro refinamento importante é a mudança no sistema de armas pesadas e granadas: elas não usam mais munição, funcionando por tempo de recarga. Isso incentiva o jogador a usar essas ferramentas com mais frequência, adicionando uma camada extra de caos e estratégia aos tiroteios.
O Mundo Aberto e a Navegação Problemática…

A maior mudança estrutural é a transição para um mundo aberto unificado no planeta Kairos. Essa decisão elimina as longas transições e telas de carregamento entre zonas , favorecendo o combate constante e a exploração. O mapa é vasto e repleto de atividades que preenchem o espaço, como eliminação de alvos, baús especiais e missões secundárias criativas. No entanto, a ambição do mundo aberto veio acompanhada de um problema gritante: a navegação. O jogo substitui o minimapa tradicional por um radar pouco claro e um sistema de marcação de caminho temporário (ECHO-4) que se torna frustrante, obrigando o jogador a repetir o comando constantemente. Além disso, os veículos (como a nova moto flutuante) são essenciais para a locomoção, mas são considerados subaproveitados e sem o brilho que já tiveram na série.
Multiplayer e Qualidade de Vida…

O modo cooperativo foi aprimorado com um escalonamento inteligente de níveis. Jogadores de níveis diferentes podem jogar juntos sem que a experiência se torne desbalanceada, o que torna o matchmaking mais acessível e divertido. Em termos de qualidade de vida, há acertos como a marcação automática de itens como “lixo” para venda rápida. Contudo, a interface geral e o inventário são um ponto de crítica recorrente. A interface é um pouco caótica, com dificuldade de acesso, falta de clareza e filtros que se resetam a cada ação.
Beleza Cel-Shading e Rock de Combate…

O visual de Borderlands 4 mantém o icônico estilo de arte cel-shading da franquia, mas com um refinamento notável. O planeta Kairos é vibrante, com biomas exuberantes e paisagens belas, consolidando-se como um dos destaques visuais da geração. O cel-shading está mais bonito, com traços mais finos que o diferenciam do estilo mais exagerado do antecessor. A trilha sonora é um ponto forte, sendo a primeira vez desde Borderlands 2 que a música realmente se destaca. Com predominância de rock pesado, ela acompanha perfeitamente o ritmo frenético do combate e das boss fights.
Conteúdo Robusto e Desafiador…

A campanha principal de Borderlands 4 tem uma duração estimada entre 20 a 25 horas . No entanto, o jogo é o maior da franquia em termos de conteúdo de lançamento. As dezenas de missões secundárias e o conteúdo de mundo aberto podem fazer a duração do jogo triplicar, oferecendo mais de 50 horas de diversão. O jogo conta com mais de 90 missões secundárias, além de um robusto endgame. A dificuldade é variável. Para jogadores solo, o desafio pode ser frustrante em alguns momentos, com chefes que se tornam “esponjas de balas”. No entanto, o jogo é totalmente jogável sozinho. A lista de troféus é inteligente, incentivando a exploração e o replay sem cair em tarefas maçantes. Um ponto de crítica na progressão é que, ao atingir o nível máximo (50) antes do fim da campanha, a experiência extra não é convertida em progressão para as árvores de especialização, o que desestimula jogadores completistas.
Resumindo…

Borderlands 4 é um jogo de transição que tenta corrigir os rumos da franquia após o criticado antecessor. A Gearbox Software acerta em cheio ao refinar a jogabilidade, que atinge seu ápice, e ao adotar um tom narrativo mais maduro e coeso. A introdução do mundo aberto, embora ousada, funciona bem para o combate constante e a exploração. No entanto, a ambição técnica do mundo aberto e o uso da Unreal Engine 5 resultaram em uma otimização limitada, que afeta a fluidez e a estabilidade da experiência, com quedas de frame.
Além disso, a interface caótica e o vilão principal pouco memorável são tropeços que impedem o jogo de alcançar a excelência. Borderlands 4 é o jogo que a franquia precisava para se reinventar. É uma aventura imperdível para os fãs e um excelente ponto de entrada para novatos. O caos continua, mas agora com um propósito mais claro e uma jogabilidade que compensa os tropeços.
Review - Borderlands 4
Jogabilidade refinada e viciante, o melhor gunplay da série - 9.5
Narrativa mais madura, séria e bem estruturada, corrigindo erros do passado - 9
Mecânicas de Movimentação (gancho e planador) que tornam o combate vertical e dinâmico - 8.5
Conteúdo Robusto no lançamento, com dezenas de missões secundárias criativas - 8
Performance Técnica ruim, com quedas de FPS e bugs - 7.5
Interface e Inventário caóticos - 7.5
Navegação frustrante devido à ausência de minimapa e ao sistema de marcação temporário - 7
Veículos subaproveitados, perdendo a relevância que já tiveram na série - 7
8
Muito Bom!
Borderlands 4 é o jogo que a franquia precisava para se reinventar. É uma aventura imperdível para os fãs e um excelente ponto de entrada para novatos, desde que estejam dispostos a lidar com os problemas técnicos..

