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Review – Digimon Story: Time Stranger

Para uma geração inteira que cresceu sintonizada nas manhãs da televisão brasileira, a franquia Digimon não é apenas um desenho animado; é um portal para um universo de laços, coragem e, acima de tudo, evolução. Quem nunca se emocionou ao ouvir a voz inconfundível de Angélica entoando o hino “Digimons, digitais, Digimons são campeões!” na abertura de Digimon Adventure? Esse momento icônico, que marcou a entrada da saga no imaginário popular brasileiro, estabeleceu uma fundação sólida para uma franquia que, desde o início, ousou ser diferente. Enquanto seu principal concorrente focava na coleção e na aventura leve, Digimon sempre se aprofundou em temas mais complexos, explorando os dramas pessoais e a jornada de amadurecimento de seus protagonistas.
 
É com essa rica bagagem emocional e narrativa que a Bandai Namco nos apresenta Digimon Story: Time Stranger, o mais novo J-RPG da subsérie Digimon Story. Lançado após um hiato de quase sete anos desde Hacker’s Memory, este título não apenas resgata a essência investigativa e o sistema de progressão robusto que cativou os fãs, mas também ousa levar a narrativa e as mecânicas a um novo nível de complexidade. O jogo se propõe a ser, simultaneamente, um aceno nostálgico aos veteranos e uma porta de entrada acessível para novos Digiescolhidos. A promessa é de uma experiência que, apesar de alguns percalços estruturais que discutiremos adiante, entrega um coração pulsante e sistemas de jogo que recompensam o planejamento e a dedicação.

A Trama de Tempo e Conflito: Onde a História Brilha

A narrativa de Digimon Story: Time Stranger é, indiscutivelmente, seu maior trunfo e a principal força motriz que o diferencia de outros RPGs de coleção de monstros. A trama se inicia com o jogador assumindo o papel de um Agente da ADAMAS, uma organização secreta cuja missão é investigar e neutralizar as “anomalias” — manifestações perigosas do Digimundo que invadem o mundo real. Essa premissa investigativa, herdada de seus antecessores, rapidamente se aprofunda com a introdução de um elemento central: a viagem no tempo.
 
O protagonista, que pode ser escolhido entre um avatar masculino ou feminino, é lançado oito anos no passado após um evento catastrófico em Shinjuku, Tóquio. Acompanhado de Inori Misono e seu parceiro Aegiomon, o Agente se vê imerso em uma guerra civil entre facções de Digimons, sendo forçado a transitar constantemente entre o Digimundo e o Tóquio do passado. A busca pelo misterioso Digiovo do Grande Guardião e a necessidade de evitar o evento cataclísmico que presenciou se tornam o foco da jornada.
 
No entanto, o que eleva Time Stranger é a profundidade e a seriedade dos temas abordados. A Bandai Namco não se esquivou de utilizar o universo lúdico de Digimon como uma lente para explorar questões sociais complexas e maduras. A existência de uma arma capaz de aniquilar Digimons em massa e a criação de distritos segregados para separar grupos são exemplos de como a fantasia é utilizada para refletir dilemas da vida real. Essa abordagem confere ao jogo uma ressonância emocional e intelectual raramente vista no gênero, honrando a tradição narrativa mais séria da franquia.
 
Apesar da riqueza da trama, é preciso reconhecer um ponto de fricção: a introdução lenta. Para jogadores menos familiarizados com o ritmo dos J-RPGs, essa lentidão pode ser um obstáculo inicial. Além disso, a escolha de manter o protagonista como um “personagem calado” (o clássico silent protagonist) pode não ter sido um acerto, porém há quem prefira um protagonista mais falastrão, até por conta de  momentos de alta carga emocional que subtrai o impacto dramático da história.

O Coração Estratégico do Gameplay: Combate e Artes X…

O sistema de combate de Digimon Story: Time Stranger é a espinha dorsal da jogabilidade, mantendo-se fiel à estrutura de RPG por turnos com uma profundidade estratégica notável. A base do sistema reside na interconexão de três fatores principais: a composição da equipe, a regra de afinidade e as habilidades especiais. O jogador gerencia uma equipe de até seis Digimons, sendo três ativos no campo de batalha e três na reserva. A possibilidade de trocar os Digimons da reserva para o campo de batalha a qualquer momento, sem gastar um turno, é uma mecânica fluida e vital. Ela permite que o jogador se adapte rapidamente às ameaças, explorando as fraquezas inimigas.
 
A regra de afinidade é a clássica lógica de “pedra, papel e tesoura” entre os atributos Vacina, Vírus e Dados. Digimons do tipo Vacina são fortes contra Vírus, Vírus contra Dados, e Dados contra Vacina. Essa afinidade, combinada com as vantagens e resistências elementais, pode resultar em um multiplicador de dano de até 300%, transformando o combate de rotina em um exercício constante de análise e estratégia. O jogador é constantemente recompensado por montar uma equipe diversificada e por saber quando e como rotacionar seus membros.

As Artes X e as Batalhas Contra Chefes…

Uma das inovações mais empolgantes no campo de batalha são as Artes X (X-Arts). Estas são habilidades especiais que o Agente pode ativar após acumular pontos através de ações estratégicas no combate. As Artes X não são meros ataques poderosos; elas funcionam como ferramentas táticas que podem aplicar buffs massivos na equipe, debuffs cruciais nos inimigos ou desferir golpes que podem virar o jogo em momentos de desespero. A forma como o Agente, o elo humano, interage diretamente no combate através dessas habilidades reforça o tema central da franquia: a parceria entre humano e Digimon.
 
As lutas contra chefes aprofundam ainda mais essa necessidade estratégica. Os chefões não são apenas inimigos com barras de vida maiores; eles possuem mecânicas únicas, incluindo ataques especiais devastadores que exigem uma resposta imediata do jogador. O sistema permite que o jogador interrompa esses ataques ao focar em partes específicas do corpo ou da armadura do chefe. Essa mecânica de “quebra” adiciona uma camada de ação e precisão ao combate por turnos, forçando o jogador a gerenciar recursos e turnos com sabedoria. Ignorar a mecânica de interrupção geralmente resulta em dano massivo ou até mesmo na derrota da equipe, elevando a tensão de cada confronto.

Qualidade de Vida e Exploração…

Para mitigar a repetição inerente ao grinding em J-RPGs, Time Stranger implementa recursos de Qualidade de Vida (QoL) louváveis. O Auto-Battle e o ajuste de velocidade de combate em até 5x permitem que batalhas mais simples sejam resolvidas rapidamente, economizando tempo do jogador para focar na história ou na gestão dos Digimons. A inclusão de ataques preventivos no mapa, que podem eliminar inimigos mais fracos antes mesmo de a batalha de turnos começar, é outra adição inteligente para tornar a exploração mais fluida.
 
No entanto, a exploração em si é um ponto fraco. Embora o jogo apresente um Digimundo visualmente vibrante, a estrutura dos mapas é linear, composta majoritariamente por corredores. A falta de inspiração em certos cenários, como esgotos e ambientes industriais repetitivos, é uma oportunidade perdida, especialmente considerando o potencial ilimitado do Digimundo.

O Vício da Evolução: Digimons, Patentes e a Digifazenda…

O verdadeiro vício em Digimon Story: Time Stranger reside no sistema de coleção e progressão dos monstros digitais. Com mais de 450 Digimons disponíveis, o jogo é um paraíso para os colecionadores e para aqueles que apreciam a complexidade das árvores de evolução.

Recrutamento e a Mecânica de Scan

O recrutamento de novos Digimons é feito através da coleta de dados (Scan) em combate. Ao enfrentar um Digimon repetidamente, o jogador aumenta sua taxa de Scan. Atingir 100% de Scan permite a criação do Digimon, mas o jogo recompensa a dedicação: um Scan de até 200% resulta em um Digimon inicial mais forte, com status aprimorados. Essa mecânica incentiva o grinding de forma inteligente, ligando a repetição de batalhas diretamente à melhoria da qualidade dos novos membros da equipe.

Digievolução e Personalidades…

A mecânica de Digievolução e De-Digievolução é o cerne da subsérie Story. A evolução não é apenas uma questão de nível, mas sim de atender a pré-requisitos complexos que envolvem status específicos, níveis de amizade (Elo) e a posse de itens raros. A possibilidade de De-Digivolver (retornar a uma forma anterior) é crucial, pois permite que o Digimon “reinicie” seu caminho evolutivo, mantendo uma parte de seus status e permitindo que o jogador explore as múltiplas linhas de evolução, que são vastas e intrinsecamente ligadas.
 
Um elemento de customização adicionado são as Personalidades dos Digimons, categorizadas em quatro eixos: Bravura, Amigabilidade, Sabedoria e Filantropia. A personalidade afeta a taxa de crescimento de status específicos e desbloqueia habilidades passivas, permitindo que o jogador molde o Digimon para uma função tática específica (tanque, atacante físico, caster, suporte).

A Digifazenda e a Progressão por Patentes…

A Digifazenda, o local onde o treinamento e a gestão de Personalidades ocorrem, é o ponto tenho mais ressalvas no jogo. Embora seja essencial para o progresso, a falta de otimização dos menus e a necessidade de um tedioso “entra e sai” para gerenciar o treinamento e a alimentação dos Digimons tornam o processo maçante. A alimentação, necessária para aumentar o Elo (que garante a retenção de status após a evolução/desevolução), é repetitiva e demorada. A impossibilidade de visualizar as possíveis evoluções diretamente na tela da fazenda, forçando o jogador a navegar por múltiplos menus, é um problema de usabilidade que quebra o ritmo do jogo.
 
A progressão do jogador é rigidamente controlada pelo sistema de Patentes (Agent Rank). As Digievoluções de nível superior (Supremo, Extremo, Híbrido) são bloqueadas até que o Agente atinja uma patente específica. Para avançar de patente, o jogador deve completar missões e acumular pontos de anomalia. Essa mecânica serve como um freio estratégico, impedindo que o jogador se torne excessivamente forte apenas com grinding, e força a dedicação à missão principal e às missões secundárias. As missões opcionais, que são rápidas e enriquecem a lore e o relacionamento com os personagens, tornam-se, assim, uma parte obrigatória e recompensadora da experiência.

O Brilho do Anime e a Trilha Sonora Tímida…

No quesito audiovisual, Digimon Story: Time Stranger é um avanço significativo para a subsérie. O jogo é, visualmente, o mais bonito da linha Story, utilizando a técnica cel-shading com maestria para emular o estilo de anime. Os gráficos são vibrantes, os modelos dos Digimons são detalhados e as animações de ataque são cinematográficas, evocando a sensação de estar assistindo a um episódio do anime. O Digimundo é apresentado com uma direção de arte que busca a vivacidade, com áreas semi-abertas que, apesar de lineares, são ricas em detalhes. A inclusão de Digimontarias não só adiciona charme, mas também melhora a velocidade de deslocamento, reforçando a imersão na parceria com os monstros digitais.
 
Apesar do brilho visual, o jogo tropeça na trilha sonora. As músicas de fundo são pouco empolgantes e sofrem com loops curtos e repetitivos. Em um J-RPG onde o jogador passa dezenas de horas, uma trilha sonora memorável é crucial, e a de Time Stranger é, infelizmente, tímida e, por vezes, irritante. Por outro lado, a localização para o português do Brasil é um ponto positivo, permitindo que o público lusófono desfrute da complexa narrativa sem barreiras linguísticas, textos, itens e menus estão todos traduzidos. 

Resumindo…

Digimon Story: Time Stranger é um jogo excelente. Ele entrega uma das narrativas mais maduras e envolventes da franquia, apoiada por um sistema de combate e evolução que é profundo e viciante. No entanto, sua experiência é manchada por problemas de usabilidade na Digifazenda e pela falta de inspiração na exploração e na trilha sonora. É um jogo que exige paciência e dedicação, mas que recompensa o jogador com uma das experiências mais ricas de coleção de monstros da atualidade. 
 

Ele é um título altamente recomendado para os fãs que buscam uma aventura digital com substância, e para qualquer entusiasta de RPGs que aprecie sistemas de progressão complexos. A dedicação em dominar suas mecânicas e a imersão em sua história madura superam os problemas de Quality of Life. Se você está disposto a fazer essa concessão, prepare seu Digivice: a jornada de Time Stranger é uma das mais emocionantes e recompensadoras dos últimos anos.

Review - Digimon Story: Time Stranger

História madura e complexa - 9.5
Sistema de turnos estratégico - 9.5
Boss Fights dinâmicas com interrupção - 9
Gráficos cel-shading de alta qualidade - 8.5
Introdução excessivamente lenta - 8
Menus da Digifazenda mal otimizados e maçantes - 7.5

8.7

Muito Bom!

Digimon Story: Time Stranger é um excelente J-RPG que honra o legado de sua franquia, provando que Digimon ainda tem muito a oferecer no mundo dos videogames.

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Eduardo Lino

Olá, Eu sou o Edu! Sou o criador do portal de notícias Gamer Spoiler. Apaixonado por games desde pequeno e jornalista nas horas vagas!
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